1803–1851

Missionário · Diplomata

Karl Gützlaff

Resumo
Missionário luterano alemão, pioneiro do trabalho protestante na Tailândia e na China. Fez as primeiras traduções conhecidas de partes das Escrituras ao tailandês e defendeu que a China só seria evangelizada por chineses, princípio que inspirou Hudson Taylor e a China Inland Mission.
Quem foi
Biografia

Em 1820, um adolescente órfão de mãe lança um poema pela janela da carruagem do rei da Prússia, pedindo ajuda para estudar. O gesto ousado funciona: o rei Frederico Guilherme III se impressiona e abre as portas de uma escola de missões em Berlim para o jovem Karl Gützlaff, filho de um alfaiate da Pomerânia.

Formado na escola do pregador Johannes Jänicke e depois treinado pela Sociedade Missionária dos Países Baixos, em Roterdã, Gützlaff revelou um dom raro para línguas. Em poucos anos aprendeu holandês, malaio, tailandês, cambojano e vários dialetos chineses, habilidade que marcaria toda a sua vida.

Enviado a Batávia em 1826, mudou-se para Bangcoc dois anos depois. Ao lado do missionário Jacob Tomlin, começou a traduzir os evangelhos ao tailandês. Em 1834 publicou o Evangelho de Lucas em escrita tailandesa, a mais antiga impressão bíblica conhecida naquele idioma.

A alegria durou pouco: em 1829 casou-se com a missionária Maria Newell, mas ela morreu em 1831, pouco depois de dar à luz gêmeos que também não sobreviveram. Viúvo e sem vínculo com sua sociedade missionária, Gützlaff decidiu seguir sozinho rumo à China, então fechada a estrangeiros.

Para chegar à costa chinesa, aceitou trabalhar como intérprete em navios comerciais britânicos que também transportavam ópio. Distribuía Bíblias e panfletos enquanto o navio vendia a droga, contradição que ele próprio reconheceu com desconforto e que mancha sua biografia até hoje.

Em 1834, já viúvo, casou-se com a missionária britânica Mary Wanstall. Radicada em Macau, ela abriu uma escola e, a partir de 1837, um trabalho pioneiro de alfabetização de meninas chinesas cegas. Mary morreu em Cingapura em 1849; poucos meses depois, em turnê pela Europa, Gützlaff casou-se pela terceira vez, com Dorothy Gabriel.

A fluência em chinês o tornou indispensável: foi intérprete na Primeira Guerra do Ópio e no Tratado de Nanquim, em 1842, e depois secretário para assuntos chineses do governo britânico em Hong Kong. Usou o cargo para distribuir Escrituras e panfletos cristãos.

Convencido de que a China só seria alcançada por chineses, fundou em 1844 a União Chinesa, rede de evangelistas nativos. Em turnê pela Europa, porém, descobriu que parte deles havia forjado relatórios de conversão e revendido as Bíblias recebidas. O golpe o abalou profundamente, e críticos da época chegaram a chamá-lo de charlatão.

Gützlaff morreu em Hong Kong, em 1851, sem ver o desfecho completo do escândalo que também ajudara a construir. Sua convicção de que os próprios chineses deveriam evangelizar a China sobreviveu aos seus erros e inspirou gerações seguintes, entre elas Hudson Taylor, que o chamou de avô da China Inland Mission.

Linha do tempo
1803

Nascimento em Pyritz, Pomerânia

Filho de um alfaiate; ficou órfão de mãe ainda criança.

1821

Ingresso na escola de missões de Jänicke, em Berlim

Aceito por indicação do rei Frederico Guilherme III da Prússia.

1828

Chegada a Bangcoc, no Sião

Após período em Batávia (Java), inicia com Jacob Tomlin a tradução dos evangelhos ao tailandês.

1831

Morte da esposa Maria Newell

Ela falece após o parto de gêmeos que também não sobrevivem; Gützlaff segue sozinho rumo à China.

1834

Primeira impressão bíblica em tailandês

Publica o Evangelho de Lucas na escrita tailandesa.

1834

Segundo casamento, com Mary Wanstall

Radicada em Macau, ela funda uma escola e, a partir de 1837, um trabalho pioneiro de alfabetização de meninas chinesas cegas.

1842

Intérprete no Tratado de Nanquim

Atua a serviço britânico ao fim da Primeira Guerra do Ópio; assume o cargo de secretário para assuntos chineses em Hong Kong.

1844

Fundação da União Chinesa

Rede de evangelistas nativos chineses criada para alcançar o interior do país.

1849

Morte de Mary Wanstall e terceiro casamento

Mary morre em Cingapura; meses depois, em turnê pela Europa, Gützlaff casa-se com Dorothy Gabriel.

1849-1850

Descoberta de fraudes na União Chinesa

Ainda em turnê pela Europa, descobre que parte dos evangelistas forjava relatórios de conversão.

1851

Morte em Hong Kong

Falece aos 48 anos, ainda sob o impacto do escândalo.

Obras e marcos

Tradução do Evangelho de Lucas ao tailandês

1834

Publicada em 1834, é a mais antiga impressão bíblica conhecida na escrita tailandesa, fruto do trabalho com Jacob Tomlin em Bangcoc.

Journal of Three Voyages along the Coast of China

1834

Relato de suas viagens pela costa chinesa entre 1831 e 1833, que despertou o interesse ocidental pelas missões na China.

A Sketch of Chinese History, Ancient and Modern

1834

Obra de história da China que ajudou a apresentar o país ao público ocidental.

China Opened

1838

Estudo em dois volumes sobre geografia, história e costumes da China, um dos textos mais lidos sobre o país na época.

Participação na tradução chinesa das Escrituras

1847

Colaborou com Walter Medhurst, Elijah Bridgman e John Robert Morrison numa nova tradução do Antigo Testamento para o chinês.

Fundação da União Chinesa

1844

Rede de evangelistas nativos chineses criada para levar o evangelho ao interior do país, embrião do movimento missionário indígena.

Contribuições
1

Pioneiro das Escrituras em tailandês

Sua tradução do Evangelho de Lucas, impressa em 1834, foi a mais antiga edição bíblica conhecida na escrita tailandesa e base do trabalho bíblico posterior no Sião.

2

Divulgador da China ao Ocidente

Seus relatos de viagem e estudos de história chinesa despertaram, na Europa e nos Estados Unidos, interesse por missões e conhecimento sobre a China.

3

Defensor da igreja liderada por nativos

Defendeu, ainda no século 19, que a evangelização da China deveria ser conduzida por chineses, princípio que antecipou o movimento das igrejas autóctones.

4

Mobilizador de missionários na Europa

Seus escritos e apelos por trabalhadores para a China alcançaram a Alemanha e a Escócia, mobilizando associações missionárias em vários países.

Legado missionário

Hudson Taylor chamou Gützlaff de avô da China Inland Mission, reconhecendo-o como inspiração direta para fundar a organização que levaria o evangelho ao interior da China.

A convicção de que a China só seria evangelizada por chineses antecipou o princípio hoje comum das igrejas autóctones, lideradas e sustentadas localmente.

Suas traduções ao tailandês abriram caminho para o trabalho bíblico contínuo no Sudeste Asiático.

O fracasso da União Chinesa, descoberto ainda em vida, deixou um alerta que atravessa a história das missões: entusiasmo sem supervisão pode ser explorado, e prestação de contas é indispensável ao trabalho missionário.

Outras pessoas