Toda cidade tem gente que perdeu a bússola moral, entorpecida pela indiferença. Foi para esse público que Sam Jones dedicou a vida: um pregador que trocou a solenidade dos púlpitos por piadas, gírias e histórias do cotidiano para sacudir consciências adormecidas.
Nascido em 16 de outubro de 1847, em Oak Bowery, Alabama, foi criado em Cartersville, Geórgia, numa família de tradição metodista. Formou-se advogado e casou-se com Laura McElwain em 1868, mas o alcoolismo destruiu sua carreira e o reduziu a trabalhos braçais para sustentar a família.
Em agosto de 1872, à beira do leito de morte do pai, prometeu abandonar a bebida. Dias depois, diante do próprio reflexo num bar, arrependeu-se e decidiu seguir a Cristo. Uma semana mais tarde já pregava seu primeiro sermão, com o texto de Romanos 1:16.
Ordenado pela Conferência Norte da Geórgia da Igreja Metodista Episcopal do Sul, passou anos como pregador itinerante rural antes de se tornar agente de arrecadação do Orfanato Metodista de Decatur, função que o levou a pregar em cidades cada vez maiores.
O avivamento de Nashville, em 1885, o projetou ao cenário nacional: milhares se reuniram por três semanas sob uma tenda, entre eles o capitão de barco Tom Ryman, cuja conversão resultou na construção do Union Gospel Tabernacle, hoje o histórico Ryman Auditorium.
Jones ficou conhecido pelo lema quit your meanness, abandone a sua maldade, resumo de uma pregação que dispensava debates doutrinários e cobrava mudança prática de vida: parar de beber, pagar dívidas, tratar bem os empregados.
Seu humor grosseiro e a informalidade agradavam multidões, mas irritavam parte da elite eclesiástica e cultural: o escritor Mark Twain chegou a satirizá-lo num conto, retratando-o como um estorvo barulhento até no céu, e teólogos notavam pouco interesse seu pela exegese bíblica. Historiadores também registram que, como boa parte do clero branco sulista de sua época, Jones defendia a segregação racial e teve postura ambígua diante da violência linchadora contra negros, uma mancha que contrasta com seu discurso de reforma moral. Em 1893, o atrito com a hierarquia metodista o levou a romper e seguir como evangelista independente.
Morreu em 15 de outubro de 1906, numa viagem de trem perto de Perry, Arkansas, voltando de uma campanha em Oklahoma. Seu chamado simples e direto à conversão inspira até hoje quem busca alcançar multidões afastadas da igreja com linguagem acessível.