Povo
CharlesFred - Flickr, CC BY-NC-SA 2.0, via Joshua Project
Povo não alcançado Fronteira
Os hemshin habitam as montanhas e vales que descem para o Mar Negro, no nordeste da Turquia, uma região de neblina, chá e picos íngremes vizinha à terra do povo laz. Sua história é rara entre os povos do mundo: descendem de armênios cristãos que, ao longo de séculos sob domínio otomano, converteram-se ao islã sem deixar de habitar as mesmas montanhas de seus antepassados, e parte deles conserva até hoje um dialeto próprio do armênio.
Essa dupla herança, armênia na origem e na memória, muçulmana na fé pública, faz dos hemshin um povo de identidade sobreposta e muitas vezes silenciada. Boa parte hoje se identifica simplesmente como turca, e muitos evitam falar abertamente sobre a origem armênia da família. Ainda assim, festas do calendário e costumes específicos de casa e vizinhança seguem marcando o que os distingue dos povos ao redor.
A origem dos hemshin remonta a comunidades armênias que se estabeleceram na região montanhosa do Mar Negro ainda em séculos remotos, fugindo de perseguições mais a leste. Por gerações, mantiveram-se como cristãos da Igreja Apostólica Armênia, isolados pela geografia acidentada que os cercava.
Sob domínio otomano, ao longo de um processo lento e ainda pouco documentado em seus detalhes, famílias inteiras foram se convertendo ao islã sunita, um movimento que se estendeu por gerações e avançou de forma desigual, com parentes próximos ficando em lados diferentes da fé por algum tempo. Ao contrário de outras comunidades que mudaram de religião, os hemshin permaneceram na mesma terra, e parte deles conservou o dialeto armênio herdado dos antepassados, criando um povo que hoje reúne elementos de duas identidades que raramente convivem.
| País | Parcela do povo | População |
|---|---|---|
Turquia Não alcançado
|
97,8%
|
152.000 |
Rússia Pouco alcançado
|
1,4%
|
2.100 |
Quirguistão Não alcançado
|
0,8%
|
1.300 |
Nas encostas voltadas para o Mar Negro, a vida ainda gira em torno do chá: famílias inteiras cultivam e colhem as folhas nas plantações que cobrem as montanhas, complementando a renda com apicultura e pequena agricultura. A pecuária de altitude marca o calendário do ano, com famílias subindo no verão para pastagens de montanhas mais altas, onde o gado produz o leite que vira queijo e iogurte antes da descida no outono.
As casas de madeira, muitas delas antigas construções comunitárias que abrigavam várias gerações sob o mesmo teto, ainda pontilham os vilarejos entre os campos de chá. Trajes tradicionais distintos, guardados para festas e ocasiões especiais, e um forte apego à paisagem montanhosa continuam unindo comunidades hoje dispersas por diferentes países.
Hoje a grande maioria dos hemshin professa o islã sunita, e essa fé está tão entrelaçada à vida cotidiana e ao pertencimento social que raramente é questionada. Ainda assim, alguns costumes de calendário e memórias familiares remontam claramente ao passado cristão armênio da comunidade, sobrevivendo como tradição doméstica mesmo onde o significado religioso original já se perdeu.
Essa camada dupla de crença, o islã vivido publicamente e ecos cristãos guardados em casa, faz da fé hemshin algo mais estratificado do que aparenta à primeira vista. Para a maioria, porém, ser muçulmano hoje é inseparável de ser hemshin, o que torna qualquer outra opção espiritual uma questão de identidade, não só de religião.
Parte da comunidade hemshin, mais próxima da fronteira com a terra do povo laz, ainda preserva em casa um antigo dialeto armênio, o homshetsma, que só recebeu um sistema de escrita formal muito recentemente, criado por linguistas para registrar uma fala até então só transmitida oralmente e ameaçada de desaparecer. Não há registro de Escritura traduzida nesse dialeto. A maioria dos hemshin, porém, já fala apenas o turco no dia a dia, língua nacional que também domina o acesso à Bíblia disponível hoje, mas que carrega pouca ressonância com a identidade mais íntima do povo.
Ser hemshin é, para a maioria, ser muçulmano sunita: a fé islâmica se fundiu à identidade do grupo a ponto de encobrir a própria origem armênia e cristã. Reconhecer publicamente essa herança já é delicado, e seguir a Cristo seria interpretado como trair não só a religião, mas a própria história familiar. A ausência de igrejas na região montanhosa onde vivem e a distância cultural e linguística em relação aos poucos cristãos da Turquia tornam ainda mais raro qualquer contato com o evangelho.
O maior anseio silencioso dos hemshin é o de reconciliar uma história dividida: muitos crescem sem clareza sobre a própria origem, e recuperar essa memória com dignidade, sem que isso signifique ruptura com a família ou a comunidade, é uma necessidade profunda. Falta também quem converse com eles sobre fé de um jeito que respeite sua língua, sua paisagem e sua história, em vez de ignorá-las ou tratá-las como curiosidade. Não há comunidade cristã local nem discipulado ao alcance de quem, entre eles, viesse a se interessar pelo evangelho.
Interceda por este povo junto com cristãos ao redor do mundo.
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