Quantas vezes uma decisão importante da vida pede anos de espera, não por indecisão, mas por seriedade? Foi assim com um dos letrados mais respeitados da China do século 16: levou sete anos estudando uma fé estrangeira antes de se batizar.
Xu Guangqi nasceu em 1562 em Xangai, numa família que havia perdido quase tudo em ataques de piratas. Estudou os clássicos confucionistas para as provas imperiais, o único caminho de ascensão social na China Ming, e enfrentou reprovações antes de finalmente ser aprovado.
Em 1596, em Guangzhou, conheceu o jesuíta italiano Lazzaro Cattaneo, seu primeiro contato com a fé cristã. Em 1600, em Nanquim, encontrou o famoso missionário Matteo Ricci. Xu passou ainda vários anos estudando a doutrina cristã junto aos padres antes de se decidir pelo batismo.
Em 1603, aos 41 anos, foi batizado com o nome de Paulo. No ano seguinte, aprovado no mais alto exame do império, entrou na prestigiada Academia Hanlin. Com Ricci, traduziu para o chinês os primeiros livros dos Elementos de Euclides, a primeira geometria ocidental na língua chinesa.
Quando um oficial budista de Nanquim moveu, em 1616, uma perseguição contra os jesuítas, Xu arriscou sua carreira e escreveu um memorial ao imperador em defesa dos missionários, dizendo-se pronto a ser punido caso as acusações fossem verdadeiras. Não foi um cristianismo de gabinete: teve custo real.
Sua fé não o afastou do mundo: testou irrigação e novas culturas em suas terras, semente de uma enciclopédia agrícola de setecentos mil caracteres, e defendeu a adoção de canhões ocidentais na defesa do império. Essa mistura de zelo cristão e cálculo de Estado nem sempre deu bons frutos: não conseguiu salvar da execução um protegido seu, acusado após um motim militar.
Chegou a Grande Secretário, um dos postos mais altos do governo Ming, e passou os últimos anos liderando a reforma do calendário chinês junto a astrônomos jesuítas. Morreu em Pequim em 1633, deixando inacabada a obra agrícola que seria publicada seis anos depois.
A vida de Xu Guangqi lembra que a fé pode crescer devagar, dentro de uma cultura e de uma vocação, sem exigir que a pessoa deixe de ser quem é. Ciência, agricultura e serviço público se tornaram, em suas mãos, lugares onde o evangelho lançou raízes que sua própria neta ainda regaria décadas depois.