Xu Guangqi
1562-1633

Cientista · Estadista

Xu Guangqi

Domínio público, via Wikimedia Commons · fonte

Resumo
Erudito e alto funcionário da dinastia Ming, um dos "três pilares" do catolicismo chinês. Convertido pelos jesuítas Matteo Ricci e Lazzaro Cattaneo, uniu fé cristã, ciência e serviço público, traduzindo Euclides e ajudando a reformar o calendário chinês.
Quem foi
Biografia

Quantas vezes uma decisão importante da vida pede anos de espera, não por indecisão, mas por seriedade? Foi assim com um dos letrados mais respeitados da China do século 16: levou sete anos estudando uma fé estrangeira antes de se batizar.

Xu Guangqi nasceu em 1562 em Xangai, numa família que havia perdido quase tudo em ataques de piratas. Estudou os clássicos confucionistas para as provas imperiais, o único caminho de ascensão social na China Ming, e enfrentou reprovações antes de finalmente ser aprovado.

Em 1596, em Guangzhou, conheceu o jesuíta italiano Lazzaro Cattaneo, seu primeiro contato com a fé cristã. Em 1600, em Nanquim, encontrou o famoso missionário Matteo Ricci. Xu passou ainda vários anos estudando a doutrina cristã junto aos padres antes de se decidir pelo batismo.

Em 1603, aos 41 anos, foi batizado com o nome de Paulo. No ano seguinte, aprovado no mais alto exame do império, entrou na prestigiada Academia Hanlin. Com Ricci, traduziu para o chinês os primeiros livros dos Elementos de Euclides, a primeira geometria ocidental na língua chinesa.

Quando um oficial budista de Nanquim moveu, em 1616, uma perseguição contra os jesuítas, Xu arriscou sua carreira e escreveu um memorial ao imperador em defesa dos missionários, dizendo-se pronto a ser punido caso as acusações fossem verdadeiras. Não foi um cristianismo de gabinete: teve custo real.

Sua fé não o afastou do mundo: testou irrigação e novas culturas em suas terras, semente de uma enciclopédia agrícola de setecentos mil caracteres, e defendeu a adoção de canhões ocidentais na defesa do império. Essa mistura de zelo cristão e cálculo de Estado nem sempre deu bons frutos: não conseguiu salvar da execução um protegido seu, acusado após um motim militar.

Chegou a Grande Secretário, um dos postos mais altos do governo Ming, e passou os últimos anos liderando a reforma do calendário chinês junto a astrônomos jesuítas. Morreu em Pequim em 1633, deixando inacabada a obra agrícola que seria publicada seis anos depois.

A vida de Xu Guangqi lembra que a fé pode crescer devagar, dentro de uma cultura e de uma vocação, sem exigir que a pessoa deixe de ser quem é. Ciência, agricultura e serviço público se tornaram, em suas mãos, lugares onde o evangelho lançou raízes que sua própria neta ainda regaria décadas depois.

Linha do tempo
1562

Nascimento em Xangai

Filho de uma família que havia perdido quase tudo em ataques de piratas.

1596

Primeiro contato com o cristianismo

Conhece o jesuíta Lazzaro Cattaneo em Guangzhou.

1600

Encontro com Matteo Ricci

Visita o missionário italiano em Nanquim.

1603

Batismo com o nome de Paulo

Batizado após anos de estudo da doutrina cristã.

1604

Aprovação no exame imperial (jinshi)

Ingressa na prestigiada Academia Hanlin.

1607

Tradução dos Elementos de Euclides

Trabalho conjunto com Matteo Ricci.

1616

Defesa dos jesuítas na perseguição de Nanquim

Memorial ao imperador em favor dos missionários.

1629

Nomeado para reformar o calendário chinês

Trabalho com astrônomos jesuítas europeus.

1633

Morte em Pequim

Falece como Grande Secretário do império.

Obras e marcos

Batismo como católico

1603

Batizado com o nome de Paulo após sete anos de estudo da doutrina cristã com os jesuítas.

Tradução dos Elementos de Euclides

1607

Com Matteo Ricci, traduziu os primeiros livros da obra de Euclides, a primeira geometria ocidental em chinês.

Experimentos agrícolas em Xangai

1607-1610

Durante um afastamento do cargo público, testou irrigação e novas culturas, como batata-doce e algodão, em suas terras.

Memorial em defesa dos jesuítas

1616

Escreveu ao imperador defendendo os missionários durante a perseguição de Nanquim, oferecendo-se para ser punido se as acusações fossem verdadeiras.

Reforma do calendário Chongzhen

1629

Liderou, com astrônomos jesuítas, a revisão do calendário chinês a partir da astronomia ocidental.

Grande Secretário do Império Ming

1632-1633

Alcançou um dos mais altos postos do governo Ming, unindo fé cristã e serviço ao Estado.

Tratado Completo de Agricultura

1639 (póstumo)

Enciclopédia agrícola de cerca de 700 mil caracteres, deixada inacabada e publicada após sua morte.

Contribuições
1

Ciência ocidental na China

Introduziu a matemática euclidiana e a astronomia ocidental no meio letrado chinês, abrindo caminho para séculos de intercâmbio científico entre China e Ocidente.

2

Reforma agrícola e social

Sistematizou técnicas de irrigação, novas culturas e medidas de socorro à fome numa enciclopédia agrícola que influenciou gerações de agricultores chineses.

3

Diálogo entre fé e cultura confuciana

Defendeu que a fé cristã podia complementar a ética confuciana sem romper com a identidade chinesa, um caminho pioneiro de adaptação do evangelho à cultura local.

4

Alto oficial cristão no governo Ming

Chegou a Grande Secretário, um dos postos mais altos do império, mostrando que a fé cristã podia conviver com o serviço público de mais alto nível.

Legado missionário

Ajudou a inaugurar, ao lado de Matteo Ricci, um modelo de missão que dialogava com a elite letrada chinesa em vez de ignorá-la, método retomado depois em outras culturas.

Sua defesa dos jesuítas em 1616 mostra como um convertido leigo pode proteger o trabalho missionário usando sua própria posição social e correndo riscos por isso.

Sua neta, Cândida Xu, nascida quatro anos após o batismo dele, tornou-se décadas depois uma das principais mecenas do catolicismo chinês, sinal de como a fé passada a uma família pode frutificar por gerações.

É reconhecido pela Igreja Católica como Servo de Deus, com processo de beatificação aberto em 2011, sinal da importância duradoura de seu testemunho.

Outras pessoas