Poucas coisas tocam tão profundamente quanto ouvir uma verdade essencial na língua que aprendemos no colo da mãe. Para milhões de pessoas ao redor do mundo, a Bíblia ainda chega, se chega, numa língua estrangeira. A história de Onesimos Nesib nasce exatamente dessa distância.
Nascido por volta de 1856 numa aldeia oromo perto de Hurumu, na atual Etiópia, recebeu o nome Hika, que significa tradutor. Ainda menino perdeu o pai; aos treze anos, em 1869, foi capturado por traficantes de escravos e passou pelas mãos de oito donos diferentes.
O suíço Werner Munzinger, então cônsul francês em Massauá, libertou o menino e o entregou à missão evangélica sueca. Ali, ele aprendeu a ler, converteu-se e foi batizado em 1872, recebendo o nome Onesimos, versão do nome do escravo fugitivo que o apóstolo Paulo devolveu transformado a Filemom.
Enviado à Suécia para estudar teologia, tentou duas vezes voltar à sua terra, em 1882 e 1886, e nas duas vezes foi impedido por guerras e fronteiras fechadas. Impedido de entrar na Etiópia, voltou à missão de Imkullu, perto de Massauá, e ali se dedicou de corpo e alma a traduzir a Bíblia para o afaan oromo, sua língua materna.
O trabalho dependeu decisivamente de Aster Ganno, jovem também liberta da escravidão, que conhecia o oromo falado como poucos. Onesimos reconheceu isso por escrito à missão: ela preenchia muitas lacunas, encontrando palavras que ele não sabia encontrar. O Novo Testamento saiu em 1893, a Bíblia completa em 1899.
O custo foi alto. Na Suíça, onde supervisionava a impressão da Bíblia entre 1897 e 1899, perdeu uma filha pequena e viu dois outros filhos adoecerem; sua esposa Lidia insistiu que ele permanecesse no posto, como Jonas não devia ter fugido. Só em 1904 conseguiu voltar a Welega, onde abriu escola com Aster.
A perseguição não cessou: em 1906, acusado pelo clero local de blasfêmia contra Maria, foi julgado e condenado ao exílio. O imperador Menelique reverteu a sentença, mas proibiu-o de pregar por dez anos, restrição só levantada em 1916. Em 1931, a caminho de um culto, Onesimos morreu de um derrame, fiel ao chamado até o fim.
A vida de Onesimos lembra que Deus não descarta o que os homens roubam: tomou um nome imposto na escravidão e o devolveu como bênção para todo um povo. Onde a Escritura ainda não fala a língua do coração de alguém, essa tarefa inacabada continua sendo, hoje, um chamado real.