Onesimos Nesib
1856-1931

Tradutor da Bíblia · Evangelista

Onesimos Nesib

Domínio público, via Wikimedia Commons · fonte

Resumo
Ex-escravo etíope da etnia oromo, tornou-se o primeiro a traduzir toda a Bíblia para o afaan oromo, sua língua materna, concluída em 1899 com a colaboração decisiva de Aster Ganno. Sua obra fundou a literatura escrita oromo e abriu caminho para o evangelho entre seu povo.
Quem foi
Biografia

Poucas coisas tocam tão profundamente quanto ouvir uma verdade essencial na língua que aprendemos no colo da mãe. Para milhões de pessoas ao redor do mundo, a Bíblia ainda chega, se chega, numa língua estrangeira. A história de Onesimos Nesib nasce exatamente dessa distância.

Nascido por volta de 1856 numa aldeia oromo perto de Hurumu, na atual Etiópia, recebeu o nome Hika, que significa tradutor. Ainda menino perdeu o pai; aos treze anos, em 1869, foi capturado por traficantes de escravos e passou pelas mãos de oito donos diferentes.

O suíço Werner Munzinger, então cônsul francês em Massauá, libertou o menino e o entregou à missão evangélica sueca. Ali, ele aprendeu a ler, converteu-se e foi batizado em 1872, recebendo o nome Onesimos, versão do nome do escravo fugitivo que o apóstolo Paulo devolveu transformado a Filemom.

Enviado à Suécia para estudar teologia, tentou duas vezes voltar à sua terra, em 1882 e 1886, e nas duas vezes foi impedido por guerras e fronteiras fechadas. Impedido de entrar na Etiópia, voltou à missão de Imkullu, perto de Massauá, e ali se dedicou de corpo e alma a traduzir a Bíblia para o afaan oromo, sua língua materna.

O trabalho dependeu decisivamente de Aster Ganno, jovem também liberta da escravidão, que conhecia o oromo falado como poucos. Onesimos reconheceu isso por escrito à missão: ela preenchia muitas lacunas, encontrando palavras que ele não sabia encontrar. O Novo Testamento saiu em 1893, a Bíblia completa em 1899.

O custo foi alto. Na Suíça, onde supervisionava a impressão da Bíblia entre 1897 e 1899, perdeu uma filha pequena e viu dois outros filhos adoecerem; sua esposa Lidia insistiu que ele permanecesse no posto, como Jonas não devia ter fugido. Só em 1904 conseguiu voltar a Welega, onde abriu escola com Aster.

A perseguição não cessou: em 1906, acusado pelo clero local de blasfêmia contra Maria, foi julgado e condenado ao exílio. O imperador Menelique reverteu a sentença, mas proibiu-o de pregar por dez anos, restrição só levantada em 1916. Em 1931, a caminho de um culto, Onesimos morreu de um derrame, fiel ao chamado até o fim.

A vida de Onesimos lembra que Deus não descarta o que os homens roubam: tomou um nome imposto na escravidão e o devolveu como bênção para todo um povo. Onde a Escritura ainda não fala a língua do coração de alguém, essa tarefa inacabada continua sendo, hoje, um chamado real.

“Ela está preenchendo muitas lacunas: encontra as palavras, pois conhece a língua oromo melhor do que qualquer outra pessoa.”
Onesimos Nesib · Relato de Onesimos Nesib à Missão Evangélica Sueca sobre o trabalho de Aster Ganno no dicionário oromo, registrado em Gustav Arén, "Evangelical Pioneers in Ethiopia" (1978)
Linha do tempo
1856

Nascimento em Hurumu

Recebe o nome Hika, que significa tradutor, entre o povo oromo da Etiópia.

1869

Capturado por traficantes de escravos

Passa pelas mãos de oito donos diferentes até chegar ao porto de Massauá.

1872

Liberdade e batismo

Libertado por Werner Munzinger, é batizado em 31 de março e recebe o nome Onesimos.

1876

Estudos na Suécia

Parte para o Instituto Teológico de Johannelund, onde estuda por cinco anos.

1882

Primeira tentativa de retorno

Tenta chegar a Welega, mas é bloqueado pela guerra no Sudão e retorna à missão de Imkullu.

1893

Novo Testamento em afaan oromo

Publica o Kakuu Haaraa com a colaboração decisiva de Aster Ganno.

1899

Bíblia completa em afaan oromo

Conclui o Macaafa Qulqulluu, impresso na Suíça, depois de mais de duas décadas de trabalho.

1904

Retorno a Welega

Chega a Nejo e funda, com Aster Ganno, uma escola pública gratuita a ensinar em oromo.

1906

Julgamento e exílio

Acusado de blasfêmia pelo clero local; o imperador Menelique reverte a sentença mas proíbe pregações até 1916.

1931

Morte em Nekemte

Falece em 21 de junho, vítima de um derrame, a caminho de pregar.

Obras e marcos

Novo Testamento em afaan oromo (Kakuu Haaraa)

1893

Primeira tradução do Novo Testamento para a língua oromo, produzida na missão de Imkullu com a colaboração decisiva de Aster Ganno.

Cartilha e vocabulário oromo

1894

Publica, com Aster Ganno, o primeiro material de leitura e o vocabulário escrito da língua oromo.

Bíblia completa em afaan oromo (Macaafa Qulqulluu)

1899

Primeira Bíblia completa traduzida para uma língua vernácula da Etiópia, impressa na missão de Sankt Chrischona, na Suíça.

Catecismo Menor de Lutero em oromo

1899

Traduz o catecismo luterano para a língua oromo, base da instrução cristã do povo, impresso junto com a Bíblia completa.

Escola de Nejo

1904

Funda, com Aster Ganno, uma das primeiras escolas públicas gratuitas da Etiópia a ensinar em língua local, chegando a ter até 68 alunos.

Contribuições
1

Criação da literatura escrita oromo

Sua tradução da Bíblia se tornou o texto fundador da literatura escrita em oromo, usada por escritores e estudiosos até hoje.

2

Educação vernacular

Abriu, com Aster Ganno, uma das primeiras escolas públicas gratuitas da Etiópia a ensinar em língua local, não apenas em amárico.

3

Parceria reconhecida por escrito

Em carta à missão sueca, atribuiu a Aster Ganno o mérito de conhecer a língua oromo melhor do que qualquer outra pessoa, reconhecendo abertamente sua dependência do trabalho dela.

4

Perseverança sob pressão

Manteve o trabalho de tradução e ensino mesmo depois de julgamento, exílio e anos de proibição de pregar.

Legado missionário

Sua vida mostra que traduzir a Bíblia na língua materna de um povo é tarefa central da missão, não um extra.

Inspira o trabalho ainda em curso de tradução bíblica para línguas africanas que continuam sem Escritura completa.

A parceria com Aster Ganno lembra que a missão depende do conhecimento e do dom de quem já vive a cultura, não só de quem vem de fora.

Sua perseverança sob anos de restrição é referência para tradutores que hoje enfrentam resistência de autoridades locais.

Outras pessoas