Há quem já tenha amado alguém que não parava de voltar aos mesmos erros, e mesmo assim continuou amando, sem lógica aparente. Esse é o terreno em que a história de Gômer acontece, não como um conto distante, mas como espelho de um amor que insiste onde a razão humana desistiria.
Gômer era filha de Diblaim quando o Senhor ordenou ao profeta Oseias que a tomasse por mulher, uma prostituta, símbolo vivo da infidelidade de Israel ao seu Deus (Oseias 1:2-3). O casamento não era metáfora abstrata: era carne e sangue, com filhos que carregariam nomes de julgamento.
O primeiro filho recebeu o nome Jezreel, anúncio de castigo sobre a dinastia reinante (Oseias 1:3-4). Depois vieram Lo-Ruama, “não amada”, e Lo-Ami, “não é meu povo”, cada nome uma sentença pública sobre o afastamento de Israel do seu Deus (Oseias 1:6,8-9).
Mas o casamento não seguiu o roteiro dos nomes. Gômer se afastou de Oseias e foi atrás de outros homens, buscando neles o alimento, a água, a lã e o linho que já recebia em casa (Oseias 2:5). A infidelidade dela tornou visível o que os profetas só conseguiam dizer em palavras.
Então vem a virada que ninguém esperava. Deus ordena a Oseias: “Vá, trate novamente com amor a sua mulher, apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera” (Oseias 3:1). O profeta a compra de volta por quinze siclos de prata e uma medida de cevada, o preço aproximado de uma escrava (Oseias 3:2).
Ele não a recebe de volta para uma vida como antes; impõe um tempo de reclusão e fidelidade antes da restauração plena (Oseias 3:3). A narrativa termina aí, sem epílogo detalhado, o que só reforça que o ponto final não é sobre Gômer, e sim sobre o caráter de quem a buscou.
É difícil ler essa história sem se perguntar quantas vezes já corremos para outros lugares em busca do que Deus já nos oferecia em casa. Gômer não é apenas uma mulher do século VIII antes de Cristo, é o retrato de toda alma que troca um amor fiel por promessas vazias, e ainda assim continua sendo procurada.
