Poucos personagens da Reforma viveram um percurso tão sinuoso quanto Balthasar Hubmaier: doutor em teologia, pregador católico respeitado, depois um dos primeiros e mais lidos teólogos do batismo de adultos, até morrer na fogueira por essa mesma convicção. Sua trajetória mostra como a busca honesta pela verdade bíblica pode custar tudo.
Nascido por volta de 1480 em Friedberg, na Baviera, Hubmaier formou-se doutor em teologia pela Universidade de Ingolstadt em 1512, sob o mestre Johann Eck, e chegou a vice-reitor da instituição. Em 1516 assumiu o púlpito da catedral de Regensburg, onde ganhou fama como pregador.
Nesse período católico, Hubmaier tem uma mancha grave: ajudou a liderar, em 1519, a expulsão dos judeus de Regensburg e a destruição da sinagoga da cidade, erguendo no local um santuário mariano que atraiu peregrinos. É um episódio que a história registra sem meias palavras.
Ainda em 1524, antes de se tornar anabatista, escreveu “Sobre os hereges e os que os queimam”, um dos primeiros textos da Reforma a defender que a fé não se impõe pelo fogo ou pela espada, só pela paciência e pela instrução.
Em 1523, num encontro com Zwinglio em Zurique, Hubmaier decidiu fundamentar sua fé só na Escritura, e passou a questionar o batismo infantil. Já pároco em Waldshut desde 1521, recebeu em abril de 1525 o batismo de crentes das mãos de Wilhelm Reublin, seguido por mais de trezentos paroquianos.
Em julho de 1525, ainda em Waldshut, escreveu o tratado sobre o batismo cristão dos crentes, a defesa mais completa da teologia anabatista do batismo. Preso em Zurique no fim de 1525, Hubmaier foi torturado no cavalete até assinar uma retratação pública. O episódio o atormentou: em sua Breve Apologia de 1526 escreveu que podia errar, por ser homem, mas herege não poderia ser, pedindo a Deus perdão por sua fraqueza.
Refugiado em Nikolsburg, na Morávia, viveu seus anos mais fecundos: escreveu o primeiro catecismo anabatista e textos sobre a liberdade da vontade e a espada, moderando o movimento diante de correntes pacifistas radicais.
Capturado pelas autoridades austríacas, foi queimado em praça pública em Viena em 10 de março de 1528. Três dias depois, sua esposa, Elisabeth Hügeline, foi afogada no rio Danúbio. Sua firmeza sob perseguição continua a falar a igrejas que hoje enfrentam hostilidade por sua fé.