1794–1851

Missionário · Fundador de sociedade missionária

Allen Gardiner

Resumo
Oficial da Marinha Real britânica que deixou a farda para se tornar missionário, primeiro entre os zulus na África e depois entre povos indígenas do Chile. Fundou a sociedade que buscaria alcançar o extremo sul da América, mas morreu de fome numa expedição à Terra do Fogo, depois de anos de tentativas fracassadas.
Quem foi
Biografia

Allen Gardiner nasceu em 28 de janeiro de 1794, filho de uma família cristã de Berkshire, na Inglaterra. Entrou para a Marinha Real ainda adolescente e serviu por quase duas décadas, participando de combates navais e chegando ao posto de comandante.

Por muitos anos viveu distante da fé de seus pais, mas uma crise espiritual durante viagens ao redor do mundo e, mais tarde, a morte da primeira esposa o levaram de volta ao evangelho e a um chamado renovado para a missão. Deixou a vida ativa na marinha decidido a servir em lugares que nenhuma sociedade cristã havia alcançado.

Entre 1834 e 1838, tentou abrir uma obra entre os zulus, no sul da África. A guerra entre os bôeres e o rei zulu Dingane, que se seguiu ao massacre de Piet Retief, destruiu as estações da missão e o forçou a deixar a região. Buscou então o Chile, onde viveu entre povos indígenas de 1838 a 1843, aprendendo seus costumes e línguas.

Convencido de que a ponta sul da América precisava do evangelho, pediu apoio à Church Missionary Society e a outras agências britânicas, mas foi recusado por falta de recursos para uma missão tão remota. Em 1844, fundou sua própria agência, a Patagonian Missionary Society.

Os anos seguintes foram marcados por fracassos repetidos. Em 1845, uma primeira tentativa de missão na baía de Gregory, no estreito de Magalhães, foi repelida pelos próprios indígenas. Entre 1845 e 1847, viajou pela Bolívia distribuindo Bíblias, mas o trabalho foi hostilizado pelo clero católico local e não avançou. Em 1848, tentou se fixar na ilha Picton, na Terra do Fogo, e mais uma vez foi obrigado a recuar diante da hostilidade dos habitantes locais.

Em setembro de 1850, partiu de Liverpool para uma nova tentativa, com seis companheiros. Desembarcaram em Picton em dezembro, mas foram outra vez expulsos pelos indígenas e buscaram refúgio em Puerto Español (Spaniard Harbour). O planejamento falhou: quase toda a munição ficou a bordo do navio, e o grupo não conseguiu caçar para se alimentar. O reabastecimento previsto não chegou a tempo.

Isolados em Spaniard Harbour, os sete homens morreram de fome ao longo do primeiro semestre de 1851. O diário de Gardiner, recolhido semanas depois por um navio britânico que veio reabastecê-los, registrou até os últimos dias palavras de gratidão e esperança, não de desespero.

Nenhum indígena se converteu enquanto ele esteve vivo, e a sequência de expedições, a de 1845, a de 1848 e a final, terminou em fracasso diante dos planos originais. Mas a notícia de sua morte comoveu a Inglaterra e trouxe à sociedade recursos e voluntários que ela não tinha antes.

Anos depois, o próprio filho de Gardiner voltou à Terra do Fogo para continuar a obra do pai. A agência que ele fundou sozinho se tornaria, décadas depois, a South American Missionary Society, ainda ativa na América do Sul.

“Não sinto fome nem sede, embora esteja há cinco dias sem comer! Maravilhosa bondade para comigo, um pecador!”
Allen Gardiner · Última carta a Richard Williams, 6 de setembro de 1851, publicada em The Story of Commander Allen Gardiner, R.N., with Sketches of Missionary Work in South America (John W. Marsh e W. H. Stirling, 1867)
Linha do tempo
1794

Nascimento em Basildon

Nasce em 28 de janeiro, filho de uma família cristã de Berkshire, Inglaterra.

1808

Entra para o Colégio Naval Real

Inicia a formação na Marinha Real britânica, em Portsmouth.

1814

Combate na captura da fragata Essex

Distingue-se como oficial durante a guerra naval contra os Estados Unidos.

1834

Missão entre os zulus

Deixa a marinha ativa e tenta abrir uma obra missionária no sul da África.

1838

Missão entre povos indígenas do Chile

Passa cinco anos vivendo entre comunidades indígenas na fronteira chilena.

1844

Funda a Patagonian Missionary Society

Cria a própria agência depois de sucessivas recusas de apoio de sociedades maiores.

1845

Tentativas fracassadas na Patagônia e na Bolívia

Uma missão na baía de Gregory é repelida pelos indígenas; a viagem à Bolívia é hostilizada pelo clero católico local.

1848

Nova tentativa na Ilha Picton

Tenta se fixar na Terra do Fogo, mas é forçado a recuar diante da hostilidade dos habitantes locais.

1850

Parte para a expedição final

Zarpa de Liverpool rumo à Terra do Fogo com seis companheiros.

1851

Morte em Spaniard Harbour

Morre de fome em 6 de setembro, o último sobrevivente do grupo.

Obras e marcos

Narrative of a Journey to the Zoolu Country in South Africa

1836

Relato de sua missão entre os zulus, no sul da África, com registros da época sobre o povo e a região.

A Visit to the Indians on the Frontiers of Chili

1840

Livro sobre os anos vividos entre povos indígenas do Chile, base para o apelo por uma missão na Patagônia.

Primeira viagem à Terra do Fogo

1842

Primeiro contato exploratório com os povos fueguinos, que moldaria seu chamado final.

Fundação da Patagonian Missionary Society

1844

Sociedade criada por ele mesmo depois que agências maiores recusaram financiar uma missão tão remota.

Tentativa na Baía de Gregory

1845

Primeira tentativa de fixar uma missão no estreito de Magalhães, repelida pelos indígenas locais.

Expedição à Bolívia

1845-1847

Viagem de distribuição de Bíblias em território boliviano; o trabalho foi hostilizado pelo clero católico local e não avançou.

Tentativa na Ilha Picton

1848

Nova tentativa de se fixar na Terra do Fogo, abandonada meses depois diante da hostilidade dos habitantes locais.

Expedição final a Picton Island e Spaniard Harbour

1850-1851

Última viagem, com seis companheiros, que terminou na morte de todo o grupo por fome.

Contribuições
1

Pioneirismo missionário no extremo sul

Foi um dos primeiros a insistir, por anos e contra recusas e fracassos repetidos, que os povos da Patagônia e da Terra do Fogo precisavam ser alcançados.

2

Fundação de uma sociedade missionária duradoura

A agência que criou sozinho, sem apoio inicial de nenhuma sociedade maior, sobreviveu à sua morte e se expandiu pelo continente.

3

Registros sobre povos pouco conhecidos

Seus livros e diários deixaram um dos primeiros registros ocidentais detalhados sobre zulus, araucanos e fueguinos.

4

Falha de planejamento como advertência

O erro logístico que custou a vida de toda a expedição final, quase toda a munição ficou a bordo do navio, tornou-se um caso estudado sobre preparo em missões de risco.

Legado missionário

Sua morte, amplamente noticiada na Inglaterra, gerou uma onda de doações e voluntários que a Patagonian Missionary Society não tinha antes.

O próprio filho, Allen W. Gardiner, retornou à Terra do Fogo anos depois para dar continuidade à obra iniciada pelo pai.

A sociedade que fundou tornou-se, décadas depois, a South American Missionary Society, hoje ligada a uma rede que ainda atua na América do Sul.

Seu exemplo é lembrado como incentivo a levar o evangelho a regiões consideradas remotas demais ou sem retorno aparente, ainda que sua própria trajetória tenha sido marcada por mais fracassos do que sucessos em vida.

Outras pessoas