Ann Hasseltine nasceu em 22 de dezembro de 1789, em Bradford, Massachusetts, filha de um diácono de igreja. Trabalhou como professora desde a formatura até o casamento. Na adolescência, segundo relatos de biógrafos, era jovem sociável e mais dedicada às diversões locais do que à fé, até que, em 1806, uma leitura sobre a vocação feminina a confrontou com a futilidade dessa vida e despertou nela o desejo de uma existência dedicada a algo maior que si mesma.
Em 1810 conheceu o jovem missionário Adoniram Judson, que lhe propôs não apenas casamento, mas uma vida inteira em terras distantes, sem garantia de retorno. Ann levou cerca de dois meses para decidir, dividida entre o apego à família e o temor do sofrimento; ao aceitar, escreveu em seu diário que não se importava onde serviria, contanto que fosse útil ao reino de Deus.
Casaram-se em 5 de fevereiro de 1812 e embarcaram poucos dias depois para a Índia. Durante a longa travessia, o casal estudou o tema do batismo e concluiu que a imersão de crentes era o padrão bíblico, rompendo com a junta que os havia enviado e filiando-se aos batistas; foram batizados em Calcutá.
Impedidos de permanecer sob domínio britânico na Índia, seguiram para a Birmânia, chegando a Rangum em 1813. Ann aprendeu o idioma local, abriu espaço para ensinar meninas e escreveu um catecismo que resumia a fé cristã para os primeiros ouvintes birmaneses.
A alegria da maternidade veio acompanhada de dor: o filho Roger nasceu em 1815 e morreu antes de completar um ano de vida. Ainda assim, Ann seguiu estudando línguas e, em 1819, traduziu o Evangelho de Mateus para o tailandês, a primeira porção bíblica protestante nesse idioma, além de um catecismo impresso em caracteres tailandeses.
Em 1822, problemas de saúde a obrigaram a voltar temporariamente aos Estados Unidos; foi nesse período que escreveu um relato sobre a primeira década da missão batista na Birmânia, publicado em 1823. Recuperada, retornou à Ásia no ano seguinte.
Em 1824, a guerra entre o Reino Unido e a Birmânia mudou tudo: Adoniram foi preso como suposto espião e levado à prisão de Ava. Ann passou a viver numa cabana perto dos muros, levando comida, roupas e súplicas às autoridades, quase sempre sem resposta; em seus próprios relatos, descreveu ter chegado a momentos de profundo desespero diante da fome, da doença e da incerteza sobre o destino do marido.
Foi nesse período que ajudou a esconder, dentro de um travesseiro, o manuscrito da tradução do Novo Testamento que o marido vinha preparando havia anos; quando os presos foram transferidos e o travesseiro descartado, um servente da família o recuperou e o manteve enterrado até a libertação. Adoniram só seria solto em 1826, ao fim da guerra.
Já exaurida pelos meses de tensão e pela vida de privações, Ann morreu em 24 de outubro de 1826, em Amherst, aos 36 anos; biógrafos divergem sobre a doença exata que a levou, atribuída ora a uma febre contraída na região, ora a outras complicações ligadas ao desgaste físico dos anos anteriores. A filha caçula, Maria, sobreviveria à mãe por poucos meses. Suas cartas, publicadas nos Estados Unidos, ajudaram a firmar a imagem da mulher missionária como vocação própria, e não apenas um papel de apoio ao marido.