Poucos exemplos mostram tão bem o que significa aprender a língua de um povo para lhe dar a Bíblia quanto o pastor inglês que passou décadas estudando os sons de uma língua nativa americana, só para colocar nas mãos de seus vizinhos algonquinos um Novo Testamento e depois uma Bíblia inteira, a primeira impressa em solo americano.
Nascido em Widford, na Inglaterra, em 1604, John Eliot formou-se no Jesus College, em Cambridge, e emigrou para a colônia de Massachusetts em 1631. Estabeleceu-se como pastor da igreja de Roxbury em 1632, cargo que ocupou até a morte, quase seis décadas depois.
Eliot dedicou-se a aprender a língua massachusett com a ajuda de intérpretes indígenas. Uma primeira tentativa de pregar nessa língua, em 1646, junto ao sachem Cutshamekin, foi recebida com desdém pelos ouvintes. Semanas depois, em 28 de outubro daquele ano, pregou com sucesso na aldeia do líder Waban, perto de Boston, no que é considerado o primeiro sermão registrado em massachusett. A partir daí, passou a viajar regularmente para pregar aos povos algonquinos em sua própria língua.
Em 1651 fundou Natick, a primeira das chamadas aldeias de oração, comunidades de indígenas convertidos organizadas com líderes e leis próprias. Ao longo dos anos seguintes, cerca de catorze aldeias assim chegaram a existir na Nova Inglaterra colonial, sob orientação de Eliot.
Sua obra mais duradoura foi a tradução da Bíblia para o massachusett, publicada em partes a partir de 1661 e completa em 1663, com o apoio do impressor nativo James Printer. Foi a primeira Bíblia impressa em qualquer língua no continente americano.
O projeto de Eliot também carregava as marcas de seu tempo: exigia que os convertidos cortassem o cabelo, adotassem vestes e costumes ingleses e vivessem em núcleos familiares nos moldes europeus, rompendo laços tradicionais de parentesco e comunidade, como sinal de conversão. E quando a Guerra do Rei Filipe eclodiu, em 1675, os próprios aliados indígenas de Eliot foram presos pelas autoridades coloniais e enviados à Ilha Deer, onde mais de quinhentos morreram de frio e fome.
Eliot protestou contra o internamento, embora sua contestação não tenha sido capaz de impedi-lo ou de abreviá-lo. Depois da guerra, ele e o oficial Daniel Gookin ajudaram a reorganizar o retorno dos sobreviventes. O episódio expõe os limites de sua época, mesmo em meio a um esforço genuíno de cuidado.
Eliot morreu em Roxbury em 1690, deixando uma língua registrada em gramática e dicionário e um modelo de tradução bíblica em língua nativa. Seu exemplo antecipou, séculos antes, o princípio hoje seguido por tradutores da Bíblia ao redor do mundo: cada povo merece ouvir as Escrituras em sua própria língua.