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Povo não alcançado
Os Surdos formam, no Brasil, uma comunidade linguística e cultural própria, estimada em cerca de 630 mil pessoas que se comunicam pela Língua Brasileira de Sinais (Libras). Mais do que uma condição auditiva, a surdez é vivida por muitos como identidade: existe uma cultura surda, com expressões artísticas, valores e formas de relacionamento que se organizam em torno da língua de sinais, reconhecida oficialmente como meio legal de comunicação e expressão no país.
Os Surdos estão presentes em todas as regiões do Brasil, nas grandes cidades e no interior, em todas as classes sociais e faixas etárias. Muitos crescem em famílias ouvintes que não dominam a Libras, o que cria, desde cedo, barreiras de comunicação dentro do próprio lar. As escolas, associações de surdos, igrejas e espaços comunitários costumam ser pontos de encontro onde a língua e a cultura são partilhadas e fortalecidas.
A Libras é uma língua completa, com gramática e estrutura próprias, distinta do português. Por isso o português escrito funciona, para boa parte dos Surdos, como uma segunda língua, muitas vezes de domínio limitado. Esse detalhe é decisivo para o acesso à Palavra: textos em português, mesmo quando disponíveis, não alcançam plenamente quem pensa e sente em sinais.
A vida cotidiana dos Surdos brasileiros é marcada pela busca de comunicação plena num mundo majoritariamente ouvinte. Trabalham nas mais variadas profissões, estudam, constituem famílias e participam da vida social, mas enfrentam barreiras constantes no acesso a serviços, informação, educação e oportunidades, sobretudo onde falta intérprete de Libras ou recursos visuais adequados. A presença de tradutores e a legendagem fazem grande diferença no acesso à cidadania.
A comunidade surda valoriza fortemente os laços entre seus membros, e as associações e encontros sociais cumprem papel importante na transmissão da língua e no apoio mútuo. Ao mesmo tempo, muitos Surdos vivem certo isolamento, especialmente quando a família e o ambiente ao redor não sinalizam. O acesso desigual à Libras na infância, em algumas situações, repercute na escolarização e na inserção profissional ao longo da vida.
A maioria dos Surdos do Brasil não tem uma religião claramente definida, e a cosmovisão dentro da comunidade é bastante diversa. Muitos foram criados em lares de tradição cristã ou frequentam ambientes religiosos, mas a barreira da língua dificulta a compreensão profunda do conteúdo da fé: cultos, pregações e estudos conduzidos em português falado, sem tradução para Libras, deixam grande parte da mensagem inacessível.
Como resultado, o número dos que professam uma fé cristã consciente e compreendida é pequeno. Para muitos, as ideias sobre Deus, vida e morte foram recebidas de modo fragmentado, mediadas por terceiros, e nem sempre puderam ser examinadas e abraçadas pessoalmente. Há, portanto, uma comunidade inteira que precisa encontrar a mensagem do evangelho apresentada de forma clara, visual e na sua própria língua, a Libras.
A maior necessidade dos Surdos é o acesso à Palavra e ao ensino cristão na sua própria língua, a Libras, de forma visual e plenamente compreensível, e não apenas por meio de textos escritos em português ou de cultos sem tradução. Há grande carência de Escrituras em vídeo em língua de sinais, de materiais visuais de discipulado e de comunidades de fé onde os Surdos sejam acolhidos como protagonistas, e não como espectadores. No plano prático, persistem necessidades de educação acessível, inclusão e oportunidades dignas. Orar pelos Surdos é pedir que barreiras de comunicação sejam derrubadas e que cada um possa ouvir, com os olhos, a mensagem do amor de Deus.
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