Nascida em 1848 na pobreza de Aberdeen, na Escócia, Mary Slessor entrou ainda criança para trabalhar numa fábrica têxtil, revezando meio turno de estudo com meio turno de tear. A dureza da infância, marcada pelo alcoolismo do pai, forjou nela uma resistência que mais tarde levaria para a África.
A notícia da morte do explorador e missionário David Livingstone, que se espalhou pela Grã-Bretanha em 1874, despertou nela o desejo de servir como missionária. Dois anos depois embarcou para Calabar, no sudeste da Nigéria, a serviço da Igreja Presbiteriana Unida da Escócia.
Diferente de muitos missionários de sua época, Slessor recusou boa parte das precauções ocidentais: andava descalça, bebia água sem ferver e dispensava mosquiteiro. Aprendeu a língua efik com fluência e passou a viver como os nativos, o que lhe rendeu confiança onde outros só encontravam resistência.
Em 1888 mudou-se sozinha para o território okoyong, região onde missionários homens já haviam sido mortos. Ali enfrentou de frente a crença de que o nascimento de gêmeos era uma maldição: resgatou dezenas de crianças abandonadas para morrer e adotou várias delas como filhas.
Sua autoridade moral levou as autoridades britânicas a nomeá-la, em 1892, vice-cônsul e magistrada de um tribunal nativo, papel que exerceu com bom senso para apaziguar conflitos entre povos vizinhos. Ficou conhecida como a rainha branca de Okoyong. Era, porém, descrita por biógrafos como uma mulher direta e obstinada, que enfrentava tanto chefes tribais quanto a própria junta missionária: chegou a deixar o posto de magistrada por desentendimento com um novo comissário distrital, retomando a função só em 1905.
Sua vocação também teve um custo pessoal. Em 1891 ficou noiva do missionário Charles Morrison, mas o compromisso se desfez quando a junta missionária negou a ele permissão para viver com ela no interior. Morrison teve a saúde abalada pelo rompimento, precisou deixar o trabalho missionário e mais tarde se mudou para os Estados Unidos, onde morreu. O episódio mostra o preço humano de uma vida inteiramente entregue à missão, e não só o seu lado heroico.
Enfraquecida por décadas de febres de malária, continuou avançando para postos cada vez mais remotos até morrer em 1915, na estação de Use Ikot Oku. Foi sepultada com honras oficiais em Calabar, e o governador-geral da Nigéria lamentou publicamente sua perda.
A vida de Slessor lembra que a fidelidade em missões muitas vezes custa relações, conforto e reconhecimento imediato. Sua disposição de aprender a língua e os costumes de um povo antes de anunciar o evangelho segue como modelo para missões transculturais até hoje.