Quem nunca teve a rotina interrompida pela morte súbita de alguém próximo, e por um instante enxergou a própria vida com outros olhos? Foi algo parecido que abriu uma fenda na existência confortável de um mercador de Lyon, no século 12, e o levou a perguntar o que realmente valia a pena viver.
Pedro Valdo era um comerciante próspero, com esposa, filhas e patrimônio construído em parte por empréstimos a juros. Ouvir um cantor ambulante narrar a vida de Santo Aleixo, que abandonara riqueza e casamento por uma vida de entrega, o deixou inquieto. A notícia da morte repentina de um amigo, durante uma refeição, aprofundou a inquietação.
Valdo procurou um mestre da Escritura e perguntou qual era o caminho mais seguro e mais perfeito para Deus. A resposta foi Mateus 19:21, o chamado de Jesus ao jovem rico: vender tudo e dar aos pobres. Valdo tomou a resposta ao pé da letra.
No dia da Assunção, por volta de 1176, dividiu seus bens: deu à esposa a escolha entre os imóveis e os bens móveis, restituiu quem havia lesado com sua antiga prática de juros, colocou as duas filhas em um convento e distribuiu o restante aos pobres em praça pública, em plena fome que assolava a cidade.
Encomendou então a tradução dos evangelhos para o franco-provençal, a língua que o povo de Lyon realmente falava, e começou a pregar a pobreza voluntária nas ruas. Formou-se em torno dele um grupo de leigos conhecido como os Pobres de Lyon, que se espalhou pela Lombardia e além.
A pregação leiga sem autorização episcopal chocou a hierarquia. Em 1179, Valdo foi a Roma e obteve do papa Alexandre III a aprovação do seu voto de pobreza, mas não da pregação sem ordenação. Ele e seus seguidores continuaram a pregar mesmo assim, e em 1184 foram excomungados pelo papa Lúcio III no sínodo de Verona: uma ruptura que ele nunca buscara, fruto de manter sua convicção acima da obediência hierárquica.
Perseguido e expulso de Lyon, morreu em exílio em data incerta, entre 1205 e cerca de 1218, sem que se saiba com precisão onde. Mas o movimento que começou com sua renúncia sobreviveu à perseguição, atravessou séculos e ainda existe hoje.
A vida de Valdo lembra que colocar a Escritura na língua do povo e confiar a leigos a tarefa de anunciá-la não é invenção moderna: é um impulso tão antigo quanto o próprio evangelho, e continua valendo o preço de abrir mão de tudo.