Muita gente separa a fé em um compartimento privado e vive por outras regras no trabalho, na política ou na cultura. Abraham Kuyper discordou com veemência dessa divisão. Para ele, não havia um só palmo da existência humana isento do senhorio de Cristo, nem mesmo a política ou a imprensa.
Nascido em 1837 em Maassluis, na Holanda, filho de um pastor da Igreja Reformada, Kuyper estudou literatura, filosofia e teologia na Universidade de Leiden, então dominada pelo liberalismo teológico. Doutorou-se em teologia em 1862, com uma tese comparando as visões eclesiásticas de Calvino e Jan Laski, já então afastado da ortodoxia reformada.
Em 1863, já pastor na pequena Beesd, foi confrontado por uma paroquiana simples, Pietje Baltus, que se recusava a assistir aos seus cultos por considerá-los vazios de doutrina. As conversas com ela o levaram a reler as Institutas de Calvino e a abraçar a fé reformada ortodoxa que marcaria o resto de sua vida. No mesmo ano casou-se com Johanna Hendrika Schaay, com quem teve oito filhos; ela morreria em 1899, durante uma viagem à Suíça.
Em 1872 fundou o jornal De Standaard, plataforma que usaria por décadas para discutir política à luz da fé. Em 1879 fundou o Partido Antirrevolucionário, o primeiro partido político moderno da Holanda, defendendo o direito de cristãos, católicos e outros grupos organizarem escolas próprias com apoio público igualitário.
Em 1880 fundou a Vrije Universiteit de Amsterdã, livre da tutela do Estado e da igreja oficial. No discurso de posse, cunhou a frase pela qual ficou mais conhecido: não há um só palmo da existência humana sobre o qual Cristo não clame ser dono. Assim nasceu sua ideia de soberania das esferas.
Em 1886 liderou a Doleantie, um cisma na Igreja Reformada Holandesa que resultaria nas Igrejas Reformadas na Holanda. Em 1898 levou suas ideias aos Estados Unidos, proferindo as Stone Lectures em Princeton, publicadas como Lectures on Calvinism, obra que difundiu o neocalvinismo pelo mundo de língua inglesa.
Entre 1901 e 1905 foi primeiro-ministro dos Países Baixos, período marcado por reformas educacionais e, em 1909, por um escândalo envolvendo a concessão de uma condecoração real a um doador de seu partido, do qual uma comissão parlamentar o inocentou no ano seguinte, embora o episódio tenha encerrado sua carreira como líder de governo.
As mesmas Lectures on Calvinism de 1898 continham passagens em que Kuyper defendia abertamente uma hierarquia entre povos, colocando o mundo calvinista ocidental acima de africanos, chineses e outros povos que descrevia como inferiores, e ele chegou a apoiar publicamente a repressão violenta de revoltas nas Índias Orientais holandesas, então colônia neerlandesa. Décadas depois, teóricos do apartheid na África do Sul se apropriariam de sua ideia de soberania das esferas para justificar a segregação racial, uso que ele não chegou a presenciar mas que tem raiz em posições que ele próprio sustentou.
Kuyper morreu em Haia em 1920, aos 83 anos, depois de décadas dedicadas à igreja, à imprensa, à universidade e ao governo. Sua convicção de que toda esfera da vida pertence a Cristo continua a moldar cristãos que hoje procuram viver a fé integralmente, dentro e fora dos muros da igreja, ainda que seu legado inclua também posições sobre raça e colonialismo hoje reconhecidas como um erro grave de seu tempo.