1912–1994

Teólogo · Sociólogo

Jacques Ellul

Resumo
Teólogo e sociólogo francês, protestante reformado, que se tornou uma das vozes mais lidas do século 20 sobre os riscos da técnica moderna para a liberdade humana. Durante a Segunda Guerra, arriscou-se para salvar perseguidos pelo nazismo.
Quem foi
Biografia

Jacques Ellul nasceu em Bordeaux, na França, em 6 de janeiro de 1912, numa família pobre e de origens diversas: pai nascido em Malta, de ascendência italiana e sérvia, mãe franco-portuguesa. Aos dezenove anos leu O Capital, de Marx, e chegou a se aproximar do Partido Comunista, em busca de respostas para o sofrimento humano.

Em 1932, lendo o capítulo 8 da Carta aos Romanos, viveu uma conversão que descreveu como brutal e repentina. Disse que ali a Bíblia lhe deu algo que as explicações de Marx sobre a sociedade não davam. Tornou-se membro leigo da Igreja Reformada da França.

Formou-se em Direito pela Universidade de Bordeaux e doutorou-se em 1936. Lecionou nas faculdades de Montpellier, Estrasburgo e Clermont-Ferrand. Casou-se com Yvette em 1937 e teve quatro filhos. Em 1940, uma lei do governo de Vichy afastava do serviço público os professores cujo pai não fosse francês de nascimento, e Ellul foi enquadrado nela porque seu pai nascera em Malta. Perdeu a cátedra e retirou-se para uma propriedade rural em Martres.

Ali, durante a ocupação nazista, ajudou judeus e outros perseguidos a fugir, com documentos falsos e passagem para zonas mais seguras, dentro de uma rede clandestina ligada a protestantes locais. Décadas depois, em 2001, o instituto Yad Vashem o reconheceu, junto de companheiros dessa rede, como Justo entre as Nações.

Na Libertação, em 1944, chegou a servir por alguns meses como vice-prefeito de Bordeaux, mas se decepcionou com os limites reais do poder político e abandonou de vez essa via, dedicando-se à docência e à escrita. Lecionou História e Sociologia das Instituições na Universidade de Bordeaux até se aposentar, em 1980. Escreveu mais de cinquenta livros e centenas de artigos, muitos deles dedicados a mostrar como a técnica moderna molda o homem mais do que o homem a molda.

Sua obra caminhava em dois trilhos que ele deixava propositalmente separados: a análise sociológica, dura e por vezes sombria sobre a técnica e a propaganda, e a reflexão teológica, voltada à esperança e à liberdade em Cristo. Críticos como Christopher Lasch o acusaram de determinismo tecnológico e de um pessimismo sem saída, leitura que o próprio Ellul considerava incompleta, já que seus textos teológicos apontavam para o engajamento e a esperança.

Também se envolveu em causas concretas: presidiu por quase vinte anos um clube de prevenção à delinquência juvenil e presidiu, entre 1977 e 1979, o comitê de defesa da costa da Aquitânia contra a especulação imobiliária. Morreu em Pessac, perto de Bordeaux, em 19 de maio de 1994, três anos depois da morte de Yvette, sua esposa.

Seu alerta sobre a técnica que se torna um fim em si mesma continua a interpelar cristãos que vivem e servem num mundo cada vez mais moldado por sistemas automatizados e eficientes, lembrando que a liberdade humana só se sustenta quando é conscientemente escolhida e vivida.

“Nenhuma técnica é possível quando os homens são livres.”
Jacques Ellul · A Sociedade Técnica (La Technique, 1954), p. 138 da edição inglesa The Technological Society
Linha do tempo
1912

Nascimento em Bordeaux

Nasce em 6 de janeiro, em família de origens maltesa e franco-portuguesa.

1932

Conversão ao cristianismo

Lendo Romanos 8, vive uma conversão que descreve como brutal e repentina.

1936

Doutorado em Direito

Conclui doutorado na Universidade de Bordeaux.

1937

Casamento com Yvette

O casal terá quatro filhos.

1940

Afastado da cátedra por lei de Vichy

Uma lei que excluía do serviço público quem tivesse pai estrangeiro o atinge, por seu pai ter nascido em Malta; retira-se para uma propriedade rural em Martres, onde passa a ajudar perseguidos.

1944-1980

Professor em Bordeaux

Leciona História e Sociologia das Instituições até a aposentadoria, após um breve e frustrante período como vice-prefeito de Bordeaux na Libertação.

1954

Publica A Sociedade Técnica

Obra que o torna referência mundial na crítica à tecnologia moderna.

2001

Reconhecido como Justo entre as Nações

Yad Vashem homenageia, postumamente, sua ajuda a perseguidos durante a ocupação nazista.

1994

Morte em Pessac

Falece em 19 de maio, aos 82 anos, perto de Bordeaux.

Obras e marcos

A Sociedade Técnica

1954 (La Technique)

Sua obra mais influente, análise pioneira de como a técnica moderna se torna um sistema autônomo que molda a sociedade e o próprio ser humano.

Propaganda: a formação das atitudes dos homens

1962

Estudo sobre como propaganda e mídia moldam o pensamento coletivo nas sociedades técnicas modernas.

A Presença do Reino

1948

Um dos primeiros livros a expor sua visão teológica sobre o papel do cristão no mundo moderno.

A Ética da Liberdade

1973-1974

Reflexão teológica de fôlego sobre graça, liberdade e responsabilidade cristã diante dos poderes do mundo.

A Subversão do Cristianismo

1984

Obra em que questiona como instituições cristãs historicamente se afastaram do evangelho que professavam.

Rede de resgate a perseguidos durante a ocupação

1940-1944

Em sua propriedade rural em Martres, ajudou judeus e outros perseguidos a obter documentos falsos e fugir da ocupação nazista.

Docência na Universidade de Bordeaux

1944-1980

Lecionou História e Sociologia das Instituições até se aposentar, formando gerações de estudantes.

Contribuições
1

Crítica da sociedade técnica

Em A Sociedade Técnica (1954), mostrou como a busca pela eficiência (a técnica) passou a moldar toda a vida moderna, da política à religião, tornando-se uma das obras fundadoras da filosofia da tecnologia.

2

Estudo da propaganda

Em Propaganda: a formação das atitudes dos homens (1962), analisou os mecanismos psicológicos e sociais pelos quais governos e mídias moldam o pensamento das massas.

3

Teologia da liberdade

Desenvolveu, em obras como A Ética da Liberdade, uma reflexão bíblica sobre a graça e a liberdade humana diante dos sistemas que ameaçam despersonalizar o indivíduo.

4

Ação concreta na sociedade civil

Presidiu por quase duas décadas um clube de prevenção à delinquência juvenil em Bordeaux e participou de movimentos de defesa ambiental, unindo pensamento e prática.

Legado missionário

Sua crítica à técnica ajuda hoje missionários e igrejas a discernir quando ferramentas e métodos eficientes passam a substituir a dependência de Deus e o cuidado com as pessoas.

Inspirou teólogos e pensadores cristãos a refletir sobre ética e tecnologia, tema central para o testemunho cristão numa era de inteligência artificial e redes digitais.

Sua ação concreta em resgatar perseguidos durante a guerra é lembrada como exemplo de fé que se traduz em risco pessoal por amor ao próximo.

A International Jacques Ellul Society, fundada por antigos alunos em 2000, mantém viva sua obra e a discussão sobre fé, liberdade e tecnologia em várias partes do mundo.

Outras pessoas