1931–2021

Arcebispo · Ativista pela reconciliação

Desmond Tutu

Resumo
Arcebispo anglicano sul-africano, um dos rostos mais conhecidos da luta contra o apartheid. Liderou a resistência não-violenta ao regime racista e presidiu a Comissão de Verdade e Reconciliação, sendo agraciado com o Nobel da Paz em 1984.
Quem foi
Biografia

Poucas figuras do século 20 uniram fé cristã e luta pela justiça como Desmond Tutu. Arcebispo, pregador de risada fácil e crítico implacável da injustiça, ele enfrentou um dos regimes mais duros do mundo moderno sem nunca empunhar uma arma.

Nasceu em 1931, em Klerksdorp, filho de um professor e de uma auxiliar doméstica, e cresceu sob o apartheid. Aos 15 anos contraiu tuberculose e passou cerca de 18 meses hospitalizado, onde travou amizade com o padre anglicano Trevor Huddleston, que o visitava quase todas as semanas.

Formou-se professor, mas em 1957 deixou o magistério em protesto contra a Bantu Education Act, lei que impunha ensino inferior às crianças negras. Voltou-se então à teologia, foi ordenado sacerdote em 1960 e, em 1962, mudou-se para o Reino Unido para aperfeiçoar os estudos no King’s College London.

De volta à África do Sul, assumiu cargos eclesiásticos cada vez mais visíveis, até tornar-se, em 1978, secretário-geral do Conselho Sul-Africano de Igrejas. Dali usou o púlpito ecumênico como palanque de resistência pacífica, defendendo sanções contra o apartheid quando muitas outras vozes eram silenciadas.

Em 1984 recebeu o Prêmio Nobel da Paz pela liderança na campanha não-violenta contra o apartheid. Em 1986 tornou-se o primeiro arcebispo negro da Cidade do Cabo, cargo que ocupou até 1996.

Com o fim do apartheid, Nelson Mandela o convidou para presidir a Comissão de Verdade e Reconciliação, criada em 1995. Ali Tutu defendeu que só a confissão pública e o perdão, não a vingança, poderiam curar o país, e cunhou a expressão nação arco-íris para descrever a nova África do Sul. O modelo, porém, foi alvo de críticas relevantes: muitas vítimas e organizações de direitos humanos consideraram a anistia trocada por confissão pública insuficiente, já que boa parte dos responsáveis por crimes do apartheid nunca chegou a ser processada.

Sua voz profética nem sempre foi consensual. Suas comparações entre o tratamento de Israel aos palestinos e o apartheid sul-africano irritaram lideranças judaicas, que o acusaram de desequilíbrio, e sua defesa aberta da inclusão de pessoas LGBT na igreja o colocou em rota de colisão com setores mais conservadores da Comunhão Anglicana, inclusive fora da África do Sul.

Morreu em 2021, aos 90 anos, após conviver por mais de duas décadas com câncer de próstata, diagnosticado em 1997. Deixou o testemunho de que a fé cristã pode confrontar a injustiça sem ódio, e de que a reconciliação, por mais dolorosa e imperfeita que seja, é sempre um caminho mais fértil que a vingança.

“Não há futuro sem perdão.”
Desmond Tutu · Não Há Futuro Sem Perdão (No Future Without Forgiveness), 1999, título e tese central do livro sobre a Comissão de Verdade e Reconciliação
Linha do tempo
1931

Nascimento em Klerksdorp

Filho de um professor e de uma auxiliar doméstica, cresceu sob o regime do apartheid.

1947

Tuberculose e amizade com Trevor Huddleston

Passou cerca de 18 meses hospitalizado; o padre anglicano Trevor Huddleston o visitava quase todas as semanas.

1957

Deixa o magistério

Abandonou a carreira de professor em protesto contra a Bantu Education Act e voltou-se à teologia.

1960

Ordenação sacerdotal

Foi ordenado sacerdote anglicano na Catedral de St. Mary, em Joanesburgo.

1978

Secretário-geral do Conselho Sul-Africano de Igrejas

Passou a usar o púlpito ecumênico como plataforma da resistência não-violenta ao apartheid.

1984

Prêmio Nobel da Paz

Reconhecido pela liderança na campanha pacífica contra o apartheid.

1986

Arcebispo da Cidade do Cabo

Tornou-se o primeiro arcebispo negro da província anglicana da África Austral.

1995

Preside a Comissão de Verdade e Reconciliação

Convidado por Nelson Mandela para apurar os crimes do apartheid pela via da confissão e do perdão; o modelo de anistia foi criticado por parte das vítimas.

2021

Morte na Cidade do Cabo

Faleceu aos 90 anos, após conviver com câncer de próstata desde 1997.

Obras e marcos

Secretário-geral do Conselho Sul-Africano de Igrejas

1978

Assumiu o principal órgão ecumênico do país e o transformou em plataforma de resistência pacífica ao apartheid.

Prêmio Nobel da Paz

1984

Reconhecido pela liderança na campanha não-violenta contra o apartheid.

Arcebispo da Cidade do Cabo

1986

Tornou-se o primeiro arcebispo negro à frente da província anglicana da África Austral.

Comissão de Verdade e Reconciliação

1995-1998

Presidiu o órgão criado por Nelson Mandela para apurar os crimes do apartheid pela via da confissão e do perdão, num modelo depois criticado por parte das vítimas como insuficiente em justiça.

Não Há Futuro Sem Perdão

1999

Livro em que narra sua experiência à frente da Comissão de Verdade e Reconciliação.

O Livro do Perdão

2014

Escrito com a filha, Mpho Tutu, propõe um caminho prático para o perdão a partir de sua experiência pastoral.

Contribuições
1

Resistência não-violenta ao apartheid

Usou a autoridade moral da igreja para pressionar por sanções internacionais e mobilizar a resistência pacífica ao regime racista.

2

Teologia da dignidade humana

Fundamentou sua luta na ideia bíblica de que todo ser humano é imagem de Deus, argumento que usava publicamente contra a lógica do apartheid.

3

Modelo de reconciliação pós-conflito

A Comissão de Verdade e Reconciliação que presidiu tornou-se referência mundial para países que buscam superar a violência sem recorrer à vingança, ainda que críticos apontem que a anistia concedida deixou muitos crimes sem punição.

4

Voz profética global, nem sempre consensual

Suas críticas a Israel sobre o tratamento aos palestinos e sua defesa da inclusão de pessoas LGBT na igreja geraram tensão com setores conservadores e com organizações judaicas, que o acusaram de desequilíbrio.

Legado missionário

O modelo da Comissão de Verdade e Reconciliação inspirou processos de justiça restaurativa conduzidos por igrejas em outros países marcados por conflito.

Sua teologia da imagem de Deus reforça hoje o discurso missionário pela dignidade de povos marginalizados e vítimas de discriminação racial.

Como voz cristã africana de alcance mundial, abriu espaço para que líderes do Sul Global fossem ouvidos nos debates internacionais de fé e justiça.

Seu testemunho de perdão sem esquecimento segue inspirando ministérios de reconciliação étnica e racial ao redor do mundo.

Outras pessoas