Harriet Beecher Stowe cresceu numa casa cheia de sermões e de Bíblia aberta. Filha do pregador calvinista Lyman Beecher, perdeu a mãe aos cinco anos e foi criada entre irmãos que se tornariam pastores e educadores. Desde cedo, fé e letras andaram juntas em sua formação.
Em 1832, a família se mudou para Cincinnati, no Ohio, cidade fronteiriça com estados escravistas. Ali Harriet viu de perto o que os sermões só descreviam: em 1833 visitou uma fazenda no Kentucky e testemunhou um leilão de pessoas escravizadas, cena que nunca esqueceu. Casou-se em 1836 com Calvin Ellis Stowe, professor de literatura bíblica do Lane Theological Seminary.
Em 1849, no meio de uma epidemia de cólera, perdeu o filho Samuel Charles, de dezoito meses. Anos depois, escreveria que foi ao lado daquele túmulo que aprendeu o que sente uma mãe escravizada quando lhe arrancam o filho. A dor pessoal se tornaria matéria de compaixão pelo outro.
A aprovação da Lei do Escravo Fugitivo em 1850 a levou a agir. Já morando em Brunswick, no Maine, escreveu ao editor do jornal The National Era anunciando que escreveria sobre a escravidão. O romance saiu em capítulos semanais a partir de junho de 1851, e em livro, com o título A Cabana do Pai Tomás, publicado em março de 1852, vendeu trezentas mil cópias somente nos Estados Unidos no primeiro ano.
A obra usava linguagem e imagens bíblicas, o irmão vendido como José, a mãe que foge com o filho, para mostrar que a escravidão contrariava o evangelho que os próprios senhores professavam. Diante de acusações sulistas de exagero, publicou em 1853 A Key to Uncle Tom’s Cabin, reunindo documentos, depoimentos e registros reais que sustentavam o que havia escrito.
O sucesso também trouxe tropeços. A obra recorre a tipos e caricaturas de personagens negros que, com o tempo, passaram a ser lidos como estereótipos paternalistas, e o próprio nome “Tio Tomás” acabou virando, décadas depois, um insulto para designar submissão excessiva. Já idosa, um artigo seu de 1869 sobre a vida de Lord Byron, no qual repetia uma acusação de incesto contra o poeta, gerou forte escândalo, fez a revista Atlantic Monthly perder um terço dos assinantes e lhe custou parte do prestígio conquistado.
Recebida por Lincoln em 1862 e testemunha da Guerra Civil, Stowe viveu para ver o fim legal da escravidão que ajudara a golpear com a pena. Morreu em 1896, em Hartford, depois de anos de memória enfraquecida. Deixou a lembrança de que uma história bem contada, enraizada na convicção de que todo ser humano carrega a imagem de Deus, pode abalar uma nação inteira.