Toda véspera de Natal, igrejas ao redor do mundo cantam o hino “Angels from the Realms of Glory” sem saber quem o escreveu. Por trás dele está James Montgomery, poeta inglês que conheceu a perda ainda jovem e transformou dor, prisão e indignação em versos que ainda ecoam hoje.
Nascido em 1771 em Irvine, na Escócia, era filho de um pastor da Igreja Morávia. Em 1783 seus pais partiram como missionários para Barbados, no Caribe, deixando o menino na Escola Morávia de Fulneck, na Inglaterra, para ser formado no ministério.
A separação foi definitiva. A família passou a servir também em Tobago, onde a mãe morreu em 1790. O pai morreu em Barbados no ano seguinte. Órfão antes dos vinte anos, Montgomery carregaria pelo resto da vida a memória de pais que deram a própria vida à obra missionária.
Em 1792 mudou-se para Sheffield e passou a trabalhar num jornal reformista dirigido por Joseph Gales. Quando Gales deixou o país por perseguição política, em 1794, Montgomery assumiu a direção e rebatizou o periódico de Sheffield Iris, que dirigiria por mais de três décadas.
O jornal cobrava justiça sem meias palavras, e isso teve preço. Montgomery foi preso duas vezes, em 1795 e 1796, por publicar textos considerados sediciosos, entre eles um poema sobre a queda da Bastilha e um relato sobre a violência de um magistrado contra um protesto popular. Meses no Castelo de York não o silenciaram.
Livre, dedicou parte da pena à causa abolicionista. Seu poema “The West Indies”, de 1809, denunciou em versos o tráfico de escravos, celebrando a abolição decretada pela Inglaterra dois anos antes e dando forma literária à indignação de toda uma geração cristã.
Ao mesmo tempo, escrevia hinos, cerca de 400 ao longo da vida. “Angels from the Realms of Glory” saiu no Natal de 1816; “Prayer Is the Soul’s Sincere Desire” nasceu de um pedido para um tratado sobre oração; “Hail to the Lord’s Anointed” foi cantado pela primeira vez entre os morávios de Fulneck e depois recitado numa reunião missionária em Liverpool.
Nem tudo o que escreveu resistiu ao tempo. Parte de sua extensa obra poética recebeu críticas duras já na época, inclusive da influente Edinburgh Review, e da centena de hinos que compôs, poucas dezenas seguem em uso hoje. É por um punhado de textos, não pela obra inteira, que seu nome permanece vivo.
Morreu em Sheffield em 1854, com funeral público custeado pela cidade que o via como consciência moral. Poeta que foi preso por dizer a verdade e filho de missionários mortos na obra, deixou em seus hinos um chamado à adoração, à justiça e ao envio que atravessou fronteiras e séculos.