Imagine trocar uma casa confortável por um barraco de poucos metros quadrados, sem janelas, no meio da pior favela da cidade. Foi essa escolha que o jovem seminarista Toyohiko Kagawa fez na véspera de Natal de 1909, em Kobe, e que definiria o resto da sua vida.
Nascido em 10 de julho de 1888, Kagawa perdeu os pais ainda criança e foi criado por parentes que o rejeitaram depois de sua conversão ao evangelho, na adolescência, por meio dos missionários presbiterianos Harry Myers e Charles Logan. Batizado em 14 de fevereiro de 1904, encontrou na fé cristã uma nova família.
Estudou teologia em Tóquio e no Seminário de Kobe, depois no Seminário Teológico de Princeton, nos Estados Unidos, entre 1914 e 1917. Ali aprofundou também estudos de biologia, interesse que mais tarde alimentaria sua defesa de agricultura sustentável e reflorestamento no Japão.
De volta ao Japão, mudou-se para o bairro pobre de Shinkawa, em Kobe, dividindo seu barraco com mendigos e doentes que encontrava pelas ruas. Contraiu tuberculose e uma doença ocular grave, mas permaneceu ali por anos, pregando e servindo os moradores.
Convencido de que o evangelho precisava também de estrutura econômica, fundou em 1921 a cooperativa de consumo de Kobe e o grupo Amigos de Jesus, dedicado à disciplina espiritual e à ajuda mútua entre os moradores da favela. No mesmo ano, foi preso durante greves trabalhistas que ajudou a organizar.
Seu primeiro livro, publicado em 1915 a partir da vida na favela, expôs a pobreza urbana japonesa, mas também defendeu ideias eugênicas sobre criminalidade e chegou a atribuir a origem dos moradores pobres das cidades à minoria buraku, tratando ambos como inferiores. Historiadores apontam esse traço racista e discriminatório como uma mancha real ao lado de sua dedicação aos mais pobres.
Kagawa também se tornou voz contra o militarismo japonês. Fundou a Liga Nacional Contra a Guerra em 1928 e, em 1940, foi preso após pedir publicamente desculpas à China pela invasão japonesa, um gesto de coragem em meio à repressão do Estado.
Morreu em Tóquio, em 23 de abril de 1960, depois de décadas de trabalho incansável, autor de mais de cem livros e indicado ao Nobel de Literatura e ao da Paz. Seu nome permanece ligado ao cooperativismo cristão em todo o mundo.