Num tempo de guerras entre impérios e desconfiança entre religiões, um pastor prussiano ganhou algo raro: a confiança pública de rajás hindus e de um sultão muçulmano em guerra com os britânicos. Não por poder ou riqueza, mas por uma vida reconhecidamente íntegra.
Christian Friedrich Schwartz nasceu em 22 de outubro de 1726, em Sonnenburg, na Prússia. Em 1746 entrou na Universidade de Halle, centro do pietismo luterano, onde conheceu o ex-missionário Benjamin Schultze e decidiu servir na Índia. Foi ordenado em Copenhague em 1749.
Chegou à Índia em 1750 e passou mais de uma década em Tranquebar, dedicando-se ao estudo do tâmil e de outras línguas locais. Em 1762 mudou-se para Tiruchirapalli, onde atendia soldados britânicos, cristãos indianos e hindus, e aprendeu urdu para dialogar também com muçulmanos.
A partir de 1778 fixou-se em Tanjore, a convite do rajá local. Ali ganhou tamanha confiança da corte que, à morte do rajá Tuljaji, em 1787, tornou-se responsável pela proteção do jovem herdeiro Serfoji II, então com cerca de dez anos, que educou e apadrinhou por anos.
Em 1779 foi enviado como emissário de paz ao sultão Hyder Ali de Mysore, atravessando com segurança território inimigo. A missão não impediu a guerra que se seguiu, um lembrete sóbrio de que sua influência, real, tinha limites diante da política das grandes potências.
Sua fama de integridade também tinha um lado mais rígido. Em Tirunelveli, recusou por anos batizar Clarinda, uma viúva bramane que vivia, fora do casamento, com um oficial britânico que lhe prometera casamento. Só aceitou batizá-la em 1778, depois da morte dele. O episódio, registrado por biógrafos do século 19, mostra um homem de regras firmes, nem sempre flexível, mas que se tornou também, sem que ele planejasse, semente da igreja de Tirunelveli, hoje uma das comunidades cristãs mais antigas do sul da Índia.
Schwartz não é lembrado como teólogo original ou pregador de eloquência particular. Seu peso histórico veio de outro lugar: escolas abertas a todos, apoio financeiro do próprio bolso a jovens indianos que formava para o ministério, e uma vida que, segundo contemporâneos britânicos, ajudou a restaurar a reputação moral dos europeus na região.
Em 1793, um parente da família real usurpou o trono de Tanjore e afastou Serfoji II do poder. Schwartz interveio para enviar o jovem príncipe a Madras, onde pôde continuar os estudos sob proteção britânica. Só depois da morte do missionário, em junho de 1798, Serfoji II foi reconduzido ao trono, um lembrete de que nem mesmo sua influência bastou para evitar anos de exílio ao afilhado.
Morreu em Tanjore, em 13 de fevereiro de 1798, aos 71 anos. Serfoji II, já rajá restaurado, mandou erguer-lhe um monumento na igreja e escreveu versos em sua homenagem, um gesto raro de um governante hindu a um missionário cristão.
Seu modelo de missão, língua aprendida a fundo, educação para todos, formação de lideranças locais e respeito por outras tradições religiosas, continua sendo referência para o trabalho missionário no sul da Ásia até hoje.