Há histórias que a Bíblia conta em uma única frase, quase de passagem, e que ainda assim mudam a forma como vemos alguém para sempre. Talvez você já tenha sido o nome esquecido em uma ata, a pessoa que sofreu enquanto quem tinha poder para ajudar simplesmente olhou para o outro lado. A história de Sóstenes começa exatamente assim.
Ele era dirigente da sinagoga em Corinto, um cargo de respeito na comunidade judaica da cidade. Quando os judeus locais levaram Paulo ao tribunal, acusando-o de pregar um culto ilegal, o procônsul romano Gálio recusou-se a julgar o caso, considerando-o uma disputa religiosa interna.
A multidão, sem ter contra quem descontar sua frustração, agarrou Sóstenes e o espancou ali mesmo, diante do tribunal. O texto diz sem rodeios: “Gálio, porém, não demonstrou nenhuma preocupação com isso” (Atos 18:17). Um homem sofreu violência pública e quem tinha autoridade para impedir simplesmente não se importou.
O nome de Sóstenes desaparece das páginas de Atos depois desse episódio. Anos mais tarde, ao escrever aos coríntios de Éfeso, Paulo abre a carta citando um remetente ao seu lado: “e o irmão Sóstenes” (1 Coríntios 1:1). Muitos leitores da igreja antiga entenderam ser o mesmo homem, agora convertido, colaborador do apóstolo.
Se essa identificação estiver correta, a trajetória de Sóstenes é uma virada completa: de dirigente que talvez tenha se somado à acusação contra Paulo, a irmão que assina, ao lado dele, uma das cartas mais importantes do Novo Testamento.
Sua história consola quem já foi maltratado enquanto ninguém interveio, e desafia quem hoje resiste ao evangelho. O mesmo Deus que permitiu aquele espancamento diante de um tribunal indiferente também sabia transformar aquele homem em irmão. Nenhuma oposição inicial é maior do que a graça que reescreve nomes.