É difícil imaginar perder alguém profundamente amado e, ainda por cima, ter que engolir a dor diante de todos, sem choro, sem sinal externo de luto. Quem já viveu esse tipo de dor contida entende algo do que passou a esposa de Ezequiel.
A Bíblia não revela seu nome. Ela é chamada apenas de “o prazer dos seus olhos” (Ezequiel 24:16), a mulher amada pelo profeta, no meio do exílio babilônico, longe da terra natal.
No nono ano do exílio, no mesmo dia em que o rei da Babilônia iniciou o cerco final contra Jerusalém, Deus avisou Ezequiel de que ela morreria de repente, com um único golpe (Ezequiel 24:1-2, 16).
A ordem era dura: Ezequiel não deveria lamentar, chorar ou derramar lágrimas. Deveria manter o turbante e as sandálias, sem cobrir o rosto nem comer o pão costumeiro de quem está de luto (Ezequiel 24:16-17).
Naquela mesma tarde, ela morreu. Na manhã seguinte, Ezequiel fez exatamente o que lhe fora ordenado, diante dos olhos de todo o povo (Ezequiel 24:18).
O povo estranhou o silêncio do profeta e perguntou o motivo. Ezequiel explicou: assim como ela era o prazer dos seus olhos, o templo de Jerusalém era o orgulho e a alegria de Israel, e os exilados também não poderiam chorar abertamente quando a notícia da queda da cidade chegasse (Ezequiel 24:19-24).
Sua morte, mesmo dolorosa, tornou-se um sinal cumprido três anos depois, quando um fugitivo chegou até os exilados com a notícia de que Jerusalém havia caído (Ezequiel 33:21).
Sua história ensina que Deus às vezes usa até a dor mais pessoal do seu servo para falar a um povo inteiro. O luto contido dela lembra que existe, diante de Deus, espaço para uma dor que não precisa de plateia para ser real, e que o que mais amamos aqui pode ser, a qualquer momento, tirado de nossas mãos.
