1554–1612

Reformador · Fundador batista

John Smyth

Resumo
Clérigo puritano que se tornou separatista e, em Amsterdã, fundou em 1609 a primeira congregação batista da história, batizando a si mesmo e a seus seguidores por convicção de que a fé pessoal, e não a herança familiar, deveria preceder o batismo.
Quem foi
Biografia

Poucos personagens da história cristã mudaram de posição tantas vezes quanto John Smyth, e poucos pagaram um preço tão alto por isso. Sacerdote, pregador puritano, separatista e, por fim, batista, ele passou a vida buscando a forma mais fiel de ser igreja, mesmo quando isso custou cargo, pátria e amigos.

Nascido por volta de 1554 em Sturton-le-Steeple, na Inglaterra, filho de um lavrador da região, Smyth estudou no Christ’s College, em Cambridge, onde se tornou fellow em 1594. No mesmo ano foi ordenado sacerdote da Igreja Anglicana.

Em 1600 assumiu o cargo de pregador da cidade de Lincoln, uma nomeação da corporação municipal, mas suas convicções puritanas incomodaram as autoridades: foi destituído do cargo em 1602, acusado de pregar de forma faccionária contra homens de posição na cidade. Anos depois, já convencido de que a Igreja da Inglaterra precisava de reforma mais profunda, tornou-se pastor de uma congregação separatista em Gainsborough, o que lhe custou a excomunhão pela Alta Comissão eclesiástica.

Perseguidos pela lei inglesa, Smyth e seu grupo se exilaram em Amsterdã por volta de 1608, junto com outros separatistas que buscavam liberdade para adorar conforme a consciência. Foi ali, longe da Inglaterra, que suas convicções deram um passo decisivo.

Em 1609, Smyth concluiu que o batismo válido pressupõe fé pessoal, não herança familiar. Sem um ministro que pudesse batizá-lo dessa forma, batizou a si mesmo derramando água sobre a própria cabeça e, na sequência, batizou Thomas Helwys e cerca de quarenta seguidores, dando origem à primeira congregação batista da história.

O próprio gesto lhe pesou na consciência: sem sucessão reconhecida, o autobatismo lhe parecia frágil, e por isso passou a ser chamado, de modo pejorativo por seus críticos, de Se-baptist, o que se batizou a si mesmo. Smyth passou então a buscar união com os menonitas holandeses de Waterland, o que provocou uma ruptura amarga com Helwys: os dois lados chegaram a se excomungar mutuamente por heresia, e Helwys preferiu manter a igreja separada e retornar à Inglaterra.

Smyth morreu em Amsterdã em agosto de 1612, sem nunca ter sido formalmente aceito pelos menonitas, que só admitiriam seus seguidores anos depois de sua morte. Sua trajetória de mudanças sucessivas de posição, de anglicano a quase menonita em poucos anos, foi vista por contemporâneos como sinal de instabilidade, mas também de uma busca sincera e inquieta pela verdade.

O princípio que ele deixou, o de que a fé não pode ser imposta e o batismo pertence a quem crê, tornou-se marca do movimento batista mundial. Sua defesa da liberdade de consciência, registrada em sua última confissão de fé, ecoa hoje em toda igreja que recusa a coerção e aposta na decisão pessoal diante de Deus.

“O magistrado não deve, em virtude do seu cargo, intervir na religião ou nas questões de consciência, para forçar os homens a esta ou aquela forma de religião ou doutrina, mas deixar a fé cristã livre à consciência de cada um, ocupando-se apenas das transgressões civis.”
John Smyth · Propositions and Conclusions Concerning True Christian Religion, artigo 84 (1612)
Linha do tempo
c. 1554

Nascimento em Sturton-le-Steeple

Filho de um lavrador (yeoman) da Inglaterra rural.

1594

Fellow em Cambridge e ordenação anglicana

Torna-se fellow do Christ's College e é ordenado sacerdote da Igreja da Inglaterra.

1600

Pregador da cidade de Lincoln

Assume o cargo de pregador da cidade de Lincoln, nomeado pela corporação municipal, com inclinações puritanas.

1602

Destituído do cargo em Lincoln

Perde o posto acusado de pregação faccionária contra homens de posição na cidade.

c. 1606

Pastor da congregação separatista de Gainsborough

Rompe com a Igreja da Inglaterra e lidera um grupo separatista; é excomungado pela Alta Comissão eclesiástica.

1608

Exílio em Amsterdã

Foge com a congregação da perseguição religiosa na Inglaterra.

1609

Autobatismo e origem da primeira igreja batista

Batiza a si mesmo derramando água sobre a cabeça e depois cerca de quarenta seguidores, entre eles Thomas Helwys.

1610

Ruptura com Thomas Helwys

Busca união com os menonitas holandeses; ele e Helwys se excomungam mutuamente e o grupo se divide.

ago 1612

Morte em Amsterdã

Falece sem ter sido formalmente aceito pelos menonitas, admissão concedida a seus seguidores só anos depois.

Obras e marcos

A Estrela da Manhã (The Bright Morning Star)

1603

Coletânea de sermões pregados em Lincoln, com exposição do Salmo 22.

Um Modelo de Verdadeira Oração (A Pattern of True Prayer)

1605

Tratado sobre oração dedicado a Lord Sheffield, ainda no período anglicano de Smyth.

As Diferenças das Igrejas da Separação

1608

Obra que expõe sua eclesiologia separatista, defendendo a igreja local livre do controle do Estado.

Fundação da primeira congregação batista

1609

Em Amsterdã, batizou a si mesmo e depois a Thomas Helwys e a cerca de quarenta seguidores, com base na fé pessoal.

O Caráter da Besta (The Character of the Beast)

1609

Tratado que defende o batismo de professantes da fé e rejeita o batismo de recém-nascidos.

A Retratação de seus Erros

c. 1610

Documento produzido junto com uma confissão de cem artigos, no qual revê posições anteriores ao buscar união com os menonitas.

Proposições e Conclusões Sobre a Verdadeira Religião Cristã

1612

Confissão de fé póstuma que defende a liberdade de consciência diante do poder civil.

Contribuições
1

Batismo de professantes da fé

Reintroduziu a prática de batizar somente quem professa fé pessoal, base da identidade batista até hoje.

2

Eclesiologia da igreja livre

Defendeu comunidades locais voluntárias, independentes do financiamento e do controle do Estado.

3

Liberdade de consciência

Em sua última confissão de fé, argumentou que o poder civil não deve forçar ninguém em matéria de religião, ideia que se tornaria pilar do pensamento batista sobre liberdade religiosa.

4

Diálogo com os menonitas

Ao buscar reconhecimento junto às comunidades anabatistas holandesas, reconheceu publicamente as raízes mais antigas do batismo de crentes.

Legado missionário

O princípio de que o batismo segue a fé pessoal, e não o nascimento em determinada família, espalhou-se pelo mundo através do movimento batista, hoje uma das maiores famílias evangélicas engajadas em missões.

Sua defesa da liberdade de consciência inspirou gerações posteriores, entre elas Thomas Helwys, a defenderem a liberdade religiosa como direito de todo ser humano, princípio hoje central para a obra missionária em contextos de perseguição.

A experiência de Smyth como exilado por causa da fé ecoa a de milhões de crentes perseguidos hoje, que também deixam terra e conforto para viver e adorar em liberdade.

A congregação que ele ajudou a formar deu origem, por meio de Thomas Helwys, à primeira igreja batista em solo inglês, semente de um movimento hoje presente em quase todos os países do mundo.

Outras pessoas