Poucos parlamentares dedicam a vida inteira a crianças que nunca chegam a conhecer pessoalmente. Anthony Ashley Cooper, o sétimo conde de Shaftesbury, passou quase sessenta anos na política britânica lutando para tirar meninos das minas de carvão e meninas das fábricas têxteis, movido por uma fé cristã que levava a sério até nos mínimos detalhes da vida pública.
Nascido em Londres em 1801, teve infância fria numa família aristocrática distante. Os próprios pais o tratavam com dureza, e ele mesmo, já adulto, escreveria que ninguém deveria sofrer dos pais o que ele e os irmãos sofreram. A empregada Maria Millis, que cuidara antes de sua mãe, foi quem lhe ensinou orações e histórias da Bíblia, um afeto raro que ele guardou como decisivo pelo resto da vida. Formou-se em clássicas em Oxford e entrou no Parlamento aos vinte e cinco anos.
A partir de 1833 aproximou-se do movimento por leis trabalhistas, defendendo limites à jornada de mulheres e crianças nas fábricas têxteis inglesas. Em 1842 conseguiu aprovar a Lei das Minas, que proibiu meninas e meninos menores de dez anos de trabalhar dentro das minas de carvão britânicas, um dos ambientes mais perigosos da revolução industrial.
Em 1847 viu aprovada a Lei das Dez Horas, limitando a jornada diária de mulheres e adolescentes nas fábricas. Presidiu por quarenta e um anos a União das Ragged Schools, rede de escolas gratuitas que alfabetizou dezenas de milhares de crianças pobres em Londres e em outras cidades inglesas.
Shaftesbury era, porém, um conservador convicto. Temia o poder político das classes trabalhadoras e se opôs à ampliação do direito de voto, mesmo lutando ferozmente pelo bem-estar material dos pobres. Via a reforma social como dever da aristocracia cristã, não como um caminho para a igualdade política entre as classes.
Evangélico fervoroso, cria no retorno iminente de Cristo, convicção que dava urgência às suas causas. Anotou em seu diário, ainda jovem, o desejo de fundar uma política sobre a Bíblia, e via a ação social como extensão natural do evangelho, nunca como substituto da pregação e da conversão pessoal.
Essa mesma fé tinha um lado mais duro e menos lembrado. Shaftesbury opunha-se com veemência ao ritualismo católico e ao Movimento de Oxford dentro da própria Igreja Anglicana, e denunciou publicamente o financiamento estatal ao seminário católico de Maynooth, na Irlanda, uma intolerância religiosa que hoje se reconhece como típica de seu tempo, mesmo tendo defendido antes a emancipação política dos católicos.
Presidiu a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira e foi o primeiro presidente da recém-fundada YMCA, ambas por mais de três décadas, unindo reforma social e testemunho cristão. Também sustentava financeiramente sociedades missionárias de sua época, convencido de que evangelizar e cuidar dos pobres eram a mesma vocação.
Morreu em Folkestone em 1885, aos oitenta e quatro anos. Multidões de operários acompanharam seu funeral em Londres antes do sepultamento na igreja de sua propriedade rural em Dorset. Ficou conhecido como o conde do povo pobre, título que a Fonte Memorial de Piccadilly Circus lembra até hoje.