1491–1551

Reformador · Teólogo · Mediador

Martin Bucer

Resumo
Reformador de Estrasburgo e um dos grandes mediadores da Reforma protestante. Buscou reconciliar luteranos e reformados, dialogou com católicos em Ratisbona e, exilado na Inglaterra, ajudou Thomas Cranmer a moldar a liturgia que chegaria ao Livro de Oração Comum anglicano.
Quem foi
Biografia

Poucos reformadores tentaram tanto costurar o que dividia a igreja quanto Martin Bucer. Filho de um tanoeiro humilde de Sélestat, na Alsácia, ele passou a vida buscando acordo onde outros só viam ruptura, entre Lutero e Zwínglio, entre Genebra e Cantuária, entre Roma e a Reforma.

Nascido em 1491, Bucer entrou ainda adolescente para os dominicanos. Em 1518, na Disputa de Heidelberg, ouviu Lutero defender a justificação pela fé e nunca mais foi o mesmo: pediu dispensa dos votos monásticos, casou-se com a ex-freira Elisabeth Silbereisen e chegou refugiado a Estrasburgo em 1523.

Na cidade tornou-se o líder natural da Reforma, pastor de duas paróquias e organizador da vida eclesiástica local. Sua vocação de mediador logo apareceu: em 1529, no Colóquio de Marburgo, tentou sem sucesso unir Lutero e Zwínglio sobre a Ceia do Senhor.

Em 1536 teve mais êxito: a Concórdia de Wittenberg reconciliou luteranos e reformados da Alta Alemanha. Em 1541, no Colóquio de Ratisbona, chegou a redigir com o teólogo católico Johann Gropper um documento de compromisso doutrinário, esforço de unidade que marcaria toda a sua obra. Ainda em 1541, a peste tirou a vida de Elisabeth; no ano seguinte, Bucer casou-se com Wibrandis Rosenblatt, que já enviuvara de outros dois reformadores e permaneceria a seu lado até o fim.

Bucer nem sempre acertou. Em 1539 aconselhou o príncipe Filipe de Hesse, ao lado de Lutero e Melâncton, a contrair um segundo casamento sem desfazer o primeiro, e concordou que o fato fosse mantido em segredo. Quando o acordo veio a público, o episódio manchou sua reputação e a de todos os envolvidos.

Anos depois, pressionado pelo imperador Carlos V a aceitar o Interim de Augsburgo, chegou a assinar o decreto sob prisão domiciliar, em 1548. Expulso pouco depois de Estrasburgo, a cidade que servira por cerca de vinte e cinco anos, partiu para a Inglaterra em 1549.

Em Cambridge, como professor régio de teologia, dedicou seus últimos anos a aconselhar Thomas Cranmer na reforma litúrgica inglesa. Suas críticas ao Livro de Oração Comum de 1549 ajudaram a moldar a revisão de 1552, pouco antes de sua morte em 1551.

A vida de Bucer lembra que a busca por unidade cristã, mesmo imperfeita e por vezes comprometida por cálculos políticos, é parte legítima da vocação da igreja. Seu exemplo convida cristãos de hoje a dialogar através de fronteiras denominacionais sem abrir mão da verdade.

“Os ministros fiéis de Cristo não devem desistir de ninguém com facilidade.”
Martin Bucer · Concernente à verdadeira cura das almas (Von der waren Seelsorge), 1538
Linha do tempo
1491

Nascimento em Sélestat

Filho de um tanoeiro, nasce na Alsácia e entra ainda jovem para a ordem dominicana.

1518

Disputa de Heidelberg

Ouve Lutero defender a justificação pela fé e passa a se aproximar da Reforma.

1521

Dispensa dos votos monásticos

Deixa a vida religiosa dominicana e no ano seguinte se casa com Elisabeth Silbereisen, uma ex-freira.

1523

Chegada a Estrasburgo

Refugiado e excomungado, torna-se em pouco tempo o líder da Reforma na cidade.

1529

Colóquio de Marburgo

Tenta sem sucesso unir Lutero e Zwínglio sobre a doutrina da Ceia do Senhor.

1536

Concórdia de Wittenberg

Reconcilia luteranos e reformados da Alta Alemanha em torno da Ceia.

1539

Aconselhamento a Filipe de Hesse

Participa do aconselhamento controverso sobre o segundo casamento do príncipe, um dos episódios mais criticados de sua carreira.

1541-1542

Morte de Elisabeth e novo casamento

A peste tira a vida de sua primeira esposa; no ano seguinte casa-se com Wibrandis Rosenblatt, viúva de outros dois reformadores.

1548-1549

Interim de Augsburgo e expulsão de Estrasburgo

Assina o decreto imperial sob prisão domiciliar, mas é forçado a deixar a cidade pouco depois.

1551

Morte em Cambridge

Falece na Inglaterra, onde lecionava teologia e aconselhava Thomas Cranmer sobre a liturgia.

Obras e marcos

Chegada e liderança em Estrasburgo

1523

Refugiado e excomungado, chegou à cidade livre imperial e tornou-se em poucos meses a voz central da Reforma local.

Colóquio de Marburgo

1529

Tentou, sem sucesso, mediar o desacordo entre Lutero e Zwínglio sobre a presença de Cristo na Ceia do Senhor.

Concórdia de Wittenberg

1536

Documento que reconciliou luteranos e reformados da Alta Alemanha em torno da doutrina da Ceia.

Concernente à verdadeira cura das almas

1538

Tratado sobre pastoral e cuidado de almas que influenciaria ordens eclesiásticas alemãs por gerações.

Colóquio de Ratisbona

1541

Coautor, com o católico Johann Gropper, de um documento de compromisso doutrinário entre Roma e a Reforma.

Regius Professor em Cambridge

1549

Já exilado da Alemanha, assumiu a cátedra régia de teologia e passou a aconselhar Thomas Cranmer sobre a liturgia inglesa.

De Regno Christi

1550-1557

Tratado dedicado ao rei Eduardo VI com um projeto de reforma cristã da sociedade inglesa, impresso postumamente em Basileia.

Contribuições
1

Mediação teológica entre tradições

Empenhou-se em reconciliar luteranos e reformados na Concórdia de Wittenberg e em aproximar protestantes e católicos no Colóquio de Ratisbona, mesmo sem alcançar unidade plena.

2

Liturgia reformada

A liturgia que organizou em Estrasburgo influenciou o culto de Calvino em Genebra e, mais tarde, por meio de Thomas Cranmer, ajudou a moldar o Livro de Oração Comum anglicano.

3

Teologia pastoral

Em Concernente à verdadeira cura das almas, lançou bases da pastoral protestante sobre o cuidado individual dos fiéis, influenciando ordens eclesiásticas na Alemanha.

4

Formação teológica em Estrasburgo

Contribuiu para consolidar a academia da cidade como centro de formação de pregadores reformados vindos de toda a Europa.

5

Compromisso político controverso

O aconselhamento dado ao príncipe Filipe de Hesse no caso da bigamia, incluindo a concordância em ocultá-la, manchou sua reputação e lembra que reformadores também cederam a cálculos políticos.

Legado missionário

Sua busca por unidade entre tradições cristãs, mesmo imperfeita, inspira hoje o diálogo e a cooperação entre igrejas evangélicas em terreno missionário.

A liturgia que ajudou a moldar, via Cranmer, ainda estrutura o culto de igrejas anglicanas e de denominações derivadas presentes em todos os continentes.

Sua teologia pastoral sobre o cuidado de almas segue como referência para o discipulado e a formação de líderes em igrejas plantadas ao redor do mundo.

Sua trajetória de reformador expulso, obrigado a recomeçar o ministério em outro país, ecoa na vida de missionários e cristãos que hoje enfrentam deslocamento por causa da fé.

Outras pessoas