Todo imigrante que já deixou terra natal, casa e posição por causa de uma convicção entende algo do que John Cotton viveu aos 47 anos: pastor respeitado na Inglaterra, obrigado a atravessar o Atlântico para continuar pregando o evangelho como sua consciência mandava.
Nascido em Derby, Inglaterra, em 1585, Cotton entrou em Cambridge em 1598, com apenas 13 anos. Estudou no Trinity College, onde se formou bacharel em 1603, e depois no Emmanuel College, o mais puritano da universidade, onde tornou-se fellow e passou a ensinar hebraico, teologia e retórica. Ao todo, permaneceu em Cambridge por 14 anos.
Em 1612 assumiu o púlpito da igreja de St. Botolph, em Boston, na região de Lincolnshire, onde ministrou por 21 anos.
Ao longo desses anos, Cotton se aproximou cada vez mais do puritanismo, abandonando ritos anglicanos que considerava sem base bíblica. Em 1630 pregou o sermão de despedida à frota de John Winthrop, com base em 2 Samuel 7:10, comparando a colônia à terra prometida por Deus a Israel.
Processado em 1632 por sua postura não conformista, emigrou em 1633 para a colônia de Massachusetts Bay, na América, fugindo da perseguição que a Igreja da Inglaterra movia contra os puritanos. Ali se tornou mestre da Primeira Igreja de Boston, cargo que ocupou até a morte, e logo passou a ser reconhecido como o teólogo mais influente da colônia.
Cotton sistematizou a autonomia congregacional em obras como As Chaves do Reino dos Céus (1644) e O Caminho das Igrejas de Cristo na Nova Inglaterra (1645), defendendo que cada congregação local, e não uma hierarquia eclesiástica, detém a autoridade das chaves entregues por Cristo. A primeira obra chegou a convencer o teólogo John Owen a deixar o presbiterianismo e abraçar o congregacionalismo.
Sua trajetória também tem sombras documentadas: Cotton participou da disputa que levou ao banimento de Roger Williams por divergências sobre liberdade religiosa, chegando a escrever em defesa dessa expulsão. Durante a Controvérsia Antinomiana, apoiou inicialmente Anne Hutchinson, sua ex-paroquiana na Inglaterra, mas depois se voltou contra ela sob pressão dos demais pastores e magistrados, e foi ele mesmo quem pronunciou sua excomunhão em 1638, contribuindo diretamente para seu julgamento e expulsão da colônia.
Em 1646 publicou o catecismo Leite Para Criancinhas, uma introdução à fé em perguntas e respostas que se tornaria o primeiro livro infantil impresso nas colônias americanas, usado por gerações na educação cristã de crianças na Nova Inglaterra. Sua filha Maria se casaria com o pastor Increase Mather, e o filho do casal, Cotton Mather, herdaria essa vocação de ensinar a fé às novas gerações.
A vida de Cotton lembra que convicções custam caro, e que até os teólogos mais influentes erram ao lidar com quem pensa diferente. Sua busca por igrejas fiéis e bem ensinadas continua desafiando quem hoje forma comunidades cristãs em terras distantes.