1603–1683

Teólogo · Estadista · Fundador de Rhode Island

Roger Williams

Resumo
Teólogo puritano e fundador da colônia de Rhode Island, pioneiro da liberdade religiosa nas Américas. Defendeu a separação entre Igreja e Estado e a liberdade de consciência para todas as pessoas, incluindo os povos indígenas, décadas antes desses princípios se tornarem lei nos Estados Unidos.
Quem foi
Biografia

Imagine um homem banido de sua própria comunidade religiosa, em pleno inverno, por defender algo que hoje parece óbvio: que ninguém deveria ser forçado a crer. Foi o que aconteceu com Roger Williams, teólogo inglês que pagou um preço alto por insistir na liberdade de consciência.

Nascido por volta de 1603 em Londres, Williams foi protegido do jurista Sir Edward Coke, que custeou seus estudos, primeiro na Charterhouse School e depois em Cambridge. Ordenado dentro do puritanismo, emigrou para Massachusetts em 1631, buscando uma fé mais pura do que a da Igreja da Inglaterra.

Em Massachusetts, porém, Williams logo discordou das autoridades: defendia que os magistrados não tinham qualquer autoridade sobre a consciência religiosa e que as terras indígenas deveriam ser compradas, e não simplesmente tomadas dos seus donos originais. Em 1635, a colônia o condenou ao banimento por essas ideias.

No inverno seguinte, encontrou abrigo entre os povos indígenas da região, que o ajudaram a sobreviver ao frio e à fome. Em 1636, fundou Providence sobre terra negociada pacificamente com os narragansett, criando uma colônia sem igreja oficial e aberta a diferentes credos.

Em 1644, publicou The Bloudy Tenent of Persecution, defendendo que a fé imposta pela força não tem valor diante de Deus. Nesse período, escreveu que quando se abre uma brecha no muro de separação entre o jardim da igreja e o deserto do mundo, Deus acaba por derrubar o próprio muro, imagem que ecoaria séculos depois na fundação dos Estados Unidos.

Sua relação com os povos nativos, porém, não foi isenta de contradição grave: após a violenta Guerra do Rei Filipe, em agosto de 1676, presidiu a comissão de Providence que recomendou vender prisioneiros indígenas capturados como escravos, tendo inclusive recebido parte dos proventos dessa venda, decisão que contradiz o princípio de liberdade que ele mesmo defendera a vida inteira.

Ainda assim, seu legado maior permaneceu: a convicção de que ninguém deve ser coagido a crer, e de que a fé genuína nasce da persuasão, não da força. Williams morreu em Providence por volta de 1683, na colônia que ele mesmo fundara como refúgio de consciência.

Hoje, sua defesa da liberdade religiosa sustenta o espaço em que o evangelho pode ser anunciado livremente, sem coerção do Estado, em sociedades plurais ao redor do mundo, um princípio que missões cristãs continuam a exercer em contextos de perseguição e pluralismo.

“Quando abriram uma brecha na cerca, ou muro de separação, entre o jardim da igreja e o deserto do mundo, Deus sempre derrubou o muro, removeu o candelabro, e fez do seu jardim um deserto, como se vê até hoje.”
Roger Williams · Resposta à carta do reverendo John Cotton (Mr. Cotton's Letter Examined and Answered), 1644
Linha do tempo
1603

Nascimento em Londres

Nasce na Inglaterra, filho de um comerciante têxtil.

c. 1621

Aprendizado sob Sir Edward Coke

Torna-se protegido do jurista inglês, que custeia seus estudos.

1627

Formatura em Cambridge

Conclui os estudos no Pembroke College.

1631

Emigração para Massachusetts

Chega à colônia puritana da Nova Inglaterra.

1635

Banimento de Massachusetts Bay

É condenado ao exílio por defender a liberdade de consciência.

1636

Fundação de Providence

Cria a colônia de Rhode Island em terra comprada dos narragansett.

1643-1644

Viagem à Inglaterra

Publica A Key into the Language of America e obtém a primeira carta da colônia.

1663

Carta régia de Charles II

Rhode Island recebe garantia legal de liberdade religiosa.

1683

Morte em Providence

Falece na colônia que fundou como refúgio de consciência.

Obras e marcos

Fundação de Providence

1636

Estabeleceu a cidade sobre terra negociada com os narragansett, como refúgio de liberdade de consciência sem igreja oficial.

Primeira igreja batista da América

1638

Ajudou a fundar a congregação batista de Providence, embora tenha deixado a igreja formal pouco depois.

A Key into the Language of America

1643

Publicou o primeiro estudo impresso de uma língua indígena norte-americana, defendendo a igualdade dos povos nativos.

The Bloudy Tenent of Persecution

1644

Obra que defendeu a liberdade de consciência e a separação entre Igreja e Estado.

Presidência de Providence Plantations

1654-1657

Governou a colônia unificada, consolidando as leis de tolerância religiosa que havia fundado.

Carta régia de Rhode Island

1663

Obteve de Charles II uma carta que garantia por lei a liberdade religiosa da colônia.

Contribuições
1

Liberdade de consciência como princípio de governo

Fundou a primeira colônia sem igreja oficial das Américas, tornando a liberdade religiosa parte da lei, não apenas da prática.

2

Muro de separação entre Igreja e Estado

Sua imagem do muro de separação entre o jardim da igreja e o deserto do mundo antecipou em mais de um século a linguagem usada por Thomas Jefferson na formação dos Estados Unidos.

3

Relação com os povos indígenas

Negociou terras de forma pacífica e estudou a língua narragansett, mas em 1676 presidiu a comissão que recomendou vender prisioneiros indígenas como escravos, contradição grave com seus próprios princípios.

4

Pioneirismo batista

Ajudou a fundar a primeira igreja batista da América, contribuindo para o nascimento dessa tradição no Novo Mundo.

Legado missionário

Sua defesa da liberdade de consciência tornou-se base para a liberdade religiosa que hoje permite pregar o evangelho em sociedades plurais.

O princípio de que a fé não pode ser imposta pela força orienta até hoje missões que respeitam a decisão livre dos povos alcançados.

Seu estudo pioneiro da língua narragansett antecipou o trabalho posterior de tradução bíblica entre povos indígenas das Américas.

A separação entre Igreja e Estado que defendeu abriu espaço, séculos depois, para que igrejas de diferentes tradições cooperassem em missão sem coerção estatal.

Outras pessoas