Quem nunca lamentou um erro cometido na juventude, que insiste em voltar à memória anos depois? Theodore Beza, um dos maiores eruditos da Reforma Protestante, carregou por décadas o peso de versos escritos antes de sua conversão, versos que ele mesmo reprovaria pelo resto da vida.
Nascido em 24 de junho de 1519, em Vézelay, na Borgonha francesa, Beza estudou direito em Orléans e viveu anos como jurista e poeta em Paris. Em 1548, publicou Juvenilia, coletânea de poemas latinos elogiada pela elegância, mas marcada por versos indecorosos que adversários usariam contra ele mais tarde.
Uma doença grave o levou a repensar o rumo de sua vida. Ainda em 1548, converteu-se à fé reformada, abriu mão de benefícios eclesiásticos que possuía desde criança e mudou-se para Genebra, onde se aproximou de João Calvino, tornando-se, com os anos, seu colaborador mais próximo. Antes disso, em 1544, ele já havia se comprometido em segredo com Claudine Denosse, mulher de origem humilde, sem tornar a união pública, justamente para não perder os benefícios e a reputação literária que possuía; só em Genebra, em 1548, o casamento foi celebrado publicamente por Calvino.
Entre 1549 e 1558, lecionou grego na Academia de Lausanne; nesse período, exerceu também a reitoria da escola, entre 1552 e 1554. Em 1559, já em Genebra, fundou com Calvino a Academia da cidade, escola que formaria pastores reformados para toda a Europa; Beza foi seu primeiro reitor.
Em 1554, Beza publicou um tratado defendendo a execução do teólogo Miguel Servet, condenado à fogueira em Genebra por negar a doutrina da Trindade. A posição, rígida mesmo para os padrões da época, revela os limites de sua compreensão sobre liberdade de consciência.
Quando Calvino morreu, em 1564, Beza o sucedeu como pastor principal de Genebra e escreveu a primeira biografia do reformador, Vida e morte de Calvino. No mesmo período, concluiu, com Clément Marot, a tradução métrica completa dos Salmos ao francês, publicada em 1562.
Sua obra mais duradoura foi a erudição bíblica: entre 1565 e 1604, publicou sucessivas edições do Novo Testamento grego, cotejando manuscritos antigos. Essas edições alimentaram traduções protestantes decisivas, entre elas a Bíblia do Rei Jaime, de 1611. Em 1581, doou à Universidade de Cambridge o manuscrito hoje chamado Codex Bezae.
Beza morreu em Genebra em 13 de outubro de 1605, aos 86 anos. Seu rigor com o texto bíblico grego lembra que a fidelidade às Escrituras exige trabalho paciente, o tipo de serviço que raramente aparece em manchetes, mas sustenta gerações de leitores da Bíblia até hoje.