Poucos nomes evocam tanto a imagem do missionário que vira explorador quanto David Livingstone. Menino que trabalhava catorze horas por dia numa fiação de algodão na Escócia, tornou-se o rosto mais conhecido da presença cristã na África do século 19, entre feitos e fracassos que a história não deixou esquecer.
Nascido em 1813 em Blantyre, Escócia, filho de um vendedor ambulante de chá, Livingstone começou a trabalhar aos dez anos numa fiação de algodão e estudava à noite. Formou-se em medicina em Glasgow e, em 1840, partiu para a África a serviço da Sociedade Missionária de Londres, decidido a servir como médico missionário.
Estabeleceu-se na missão de Kuruman, onde conheceu Mary Moffat, filha do missionário Robert Moffat, com quem se casou em 1845. Sechele, chefe local, tornou-se seu único convertido direto; anos depois, ao retomar por um tempo práticas como a poligamia, foi visto por Livingstone como um retrocesso, ainda que a história reconheça em Sechele um evangelista notável, que seguiu liderando cultos e espalhando a fé cristã entre os próprios Bakwena e povos vizinhos.
Livingstone logo trocou o trabalho fixo de missão pela exploração, convencido de que abrir caminhos ao interior também servia ao evangelho. Cruzou o deserto do Kalahari até o Lago Ngami em 1849 e, em 1855, avistou as quedas d’água que batizou de Vitória, tornando-se célebre na Inglaterra.
A fama trouxe a Expedição do Zambeze, entre 1858 e 1864, financiada pelo governo britânico. O empreendimento foi marcado por erros técnicos, como superestimar a navegabilidade do rio, e por atritos graves com a equipe: Livingstone demitiu o artista Thomas Baines sob acusação de furto que registros posteriores consideram injusta, baseada em relatos de seu irmão Charles. A esposa Mary, que passara anos separada dele e, nesse período, chegou a desenvolver problemas com bebida, reencontrou-o na expedição e morreu de malária em 1862; os próprios filhos do casal se queixariam, mais tarde, de terem convivido pouco com o pai. Muitos, à época, consideraram a expedição um fracasso.
Ainda assim, Livingstone insistiu numa última jornada, em busca das nascentes do rio Nilo, e passou anos isolado no interior africano. Doente, sem recursos e às voltas com deserções entre seus carregadores, chegou a depender do apoio e da hospitalidade de comerciantes árabes de escravos, como Tippu Tip, para sobreviver, uma contradição que conviveu com sua luta declarada contra o tráfico. Em 1871, foi encontrado pelo jornalista Henry Morton Stanley, episódio que ficou famoso pela saudação “Dr. Livingstone, presumo?”.
Morreu em 1873, ajoelhado em oração, numa aldeia da atual Zâmbia. Seus companheiros africanos, Chuma e Susi, carregaram seu corpo por meses até a costa; o coração ficou enterrado sob uma árvore, e o corpo foi sepultado na Abadia de Westminster, em Londres.
Seus relatos sobre o tráfico de escravos no leste africano, ainda que os números que apresentava tenham sido questionados por historiadores como exagerados, pesaram na assinatura do tratado que fechou os mercados de Zanzibar, semanas após sua morte. Livingstone deixou menos convertidos diretos do que mapas e causas, mas seu exemplo de perseverança e compaixão prática segue inspirando a missão cristã até hoje.