Antes de se tornar um dos missionários mais respeitados do século 19 na África austral, Robert Moffat trabalhava como jardineiro na Escócia e na Inglaterra. Foi nesse ofício simples que Deus preparou o homem que traduziria a Bíblia inteira para uma língua africana pela primeira vez na história.
Nascido em 21 de dezembro de 1795, em Ormiston, na Escócia, filho de família modesta e criada em princípios presbiterianos rígidos pela mãe, Moffat teve pouca educação formal. Trabalhando como jardineiro na Inglaterra, conheceu Mary Smith, filha de seus patrões em Dukinfield, e influenciado pelo metodismo decidiu se tornar missionário. Juntou se à Sociedade Missionária de Londres em 1816 e, no ano seguinte, em 13 de janeiro de 1817, desembarcou na Cidade do Cabo.
Em janeiro de 1818, Moffat foi viver na aldeia do chefe Jager Afrikaner, temido na região por assaltos e roubos de gado, sucedendo o missionário alemão Johann Ebner, que já havia batizado o chefe como Christian Afrikaner em 1815. Ao longo de cerca de um ano convivendo com o povo, Moffat aprofundou o discipulado e o ensino ao chefe e, em 1819, levou o a Cidade do Cabo, apresentando o aos colonos céticos como prova viva do poder transformador do evangelho.
Moffat casou se com Mary Smith em 27 de dezembro de 1819, na Cidade do Cabo, e o casal seguiu para o interior. Em 1824, instalaram se de forma permanente na missão de Kuruman, entre o povo tswana, ao norte do rio Vaal. Os primeiros anos ali foram de trabalho duro e resultado quase nenhum, quase uma década sem um único convertido estável. Só em 1829 é que os cultos começaram a atrair multidões e surgiram os primeiros convertidos duradouros.
Foi também em Kuruman que Moffat dedicou décadas ao maior trabalho de sua vida: aprender a fundo a língua setswana e traduzir as Escrituras para ela. Concluiu o Evangelho de Lucas por volta de 1829 e, durante uma licença na Inglaterra entre 1839 e 1843, supervisionou a impressão do Novo Testamento em setswana, publicado em Londres em 1840, a primeira tradução completa do Novo Testamento numa língua da África subsaariana. A Bíblia completa, Antigo e Novo Testamento, só ficaria pronta e impressa em Kuruman em 1857, depois de cerca de trinta anos de estudo e trabalho.
Foi nessa mesma passagem por Londres, por volta de 1840, que Moffat conheceu o jovem David Livingstone, hospedado na mesma pensão para missionários, na Aldersgate Street. Ao relatar o que via nas planícies do interior africano, animou o rapaz a não repetir uma estação missionária já existente, mas avançar para território ainda não alcançado. Livingstone decidiu partir para a África ainda naquele ano e, em 1845, casou se com Mary, filha de Moffat, tornando se seu genro.
Historiadores reconhecem o trabalho de Moffat como pioneiro, mas também apontam limites: sua tradução da Bíblia e de O Peregrino para o setswana carregava pressupostos culturais e linguísticos do colonizador europeu, e sua abordagem em relação aos costumes tswana é descrita por alguns pesquisadores como paternalista, mais preocupada em substituir hábitos locais por padrões europeus de agricultura e vida do que em compreendê los em profundidade. Estudiosos observam ainda que, apesar de décadas de convívio, Moffat nunca chegou a uma compreensão profunda da cultura africana nem a uma proximidade pessoal com os tswana comparável à que teve, por exemplo, com o rei ndebele Mzilikazi.
Moffat permaneceu na África por 54 anos ao todo, entre chegada e aposentadoria, voltando à Inglaterra em 1870 com a esposa Mary, que morreu em Brixton no ano seguinte, em 1871. Ele viveu ainda mais de uma década, e morreu em 9 de agosto de 1883, em Leigh, no condado de Kent, aos 87 anos, sendo sepultado no cemitério de West Norwood, em Londres. Deixou como legado uma Bíblia em setswana, uma missão consolidada em Kuruman e um genro, Livingstone, que levaria adiante a causa da África que ele tanto amou.