1795–1883

Missionário · Tradutor da Bíblia

Robert Moffat

Resumo
Missionário escocês da Sociedade Missionária de Londres que dedicou 54 anos à África austral e traduziu a primeira Bíblia completa numa língua da África subsaariana, o setswana. Foi também quem despertou em David Livingstone, seu futuro genro, o chamado para a missão na África.
Quem foi
Biografia

Antes de se tornar um dos missionários mais respeitados do século 19 na África austral, Robert Moffat trabalhava como jardineiro na Escócia e na Inglaterra. Foi nesse ofício simples que Deus preparou o homem que traduziria a Bíblia inteira para uma língua africana pela primeira vez na história.

Nascido em 21 de dezembro de 1795, em Ormiston, na Escócia, filho de família modesta e criada em princípios presbiterianos rígidos pela mãe, Moffat teve pouca educação formal. Trabalhando como jardineiro na Inglaterra, conheceu Mary Smith, filha de seus patrões em Dukinfield, e influenciado pelo metodismo decidiu se tornar missionário. Juntou se à Sociedade Missionária de Londres em 1816 e, no ano seguinte, em 13 de janeiro de 1817, desembarcou na Cidade do Cabo.

Em janeiro de 1818, Moffat foi viver na aldeia do chefe Jager Afrikaner, temido na região por assaltos e roubos de gado, sucedendo o missionário alemão Johann Ebner, que já havia batizado o chefe como Christian Afrikaner em 1815. Ao longo de cerca de um ano convivendo com o povo, Moffat aprofundou o discipulado e o ensino ao chefe e, em 1819, levou o a Cidade do Cabo, apresentando o aos colonos céticos como prova viva do poder transformador do evangelho.

Moffat casou se com Mary Smith em 27 de dezembro de 1819, na Cidade do Cabo, e o casal seguiu para o interior. Em 1824, instalaram se de forma permanente na missão de Kuruman, entre o povo tswana, ao norte do rio Vaal. Os primeiros anos ali foram de trabalho duro e resultado quase nenhum, quase uma década sem um único convertido estável. Só em 1829 é que os cultos começaram a atrair multidões e surgiram os primeiros convertidos duradouros.

Foi também em Kuruman que Moffat dedicou décadas ao maior trabalho de sua vida: aprender a fundo a língua setswana e traduzir as Escrituras para ela. Concluiu o Evangelho de Lucas por volta de 1829 e, durante uma licença na Inglaterra entre 1839 e 1843, supervisionou a impressão do Novo Testamento em setswana, publicado em Londres em 1840, a primeira tradução completa do Novo Testamento numa língua da África subsaariana. A Bíblia completa, Antigo e Novo Testamento, só ficaria pronta e impressa em Kuruman em 1857, depois de cerca de trinta anos de estudo e trabalho.

Foi nessa mesma passagem por Londres, por volta de 1840, que Moffat conheceu o jovem David Livingstone, hospedado na mesma pensão para missionários, na Aldersgate Street. Ao relatar o que via nas planícies do interior africano, animou o rapaz a não repetir uma estação missionária já existente, mas avançar para território ainda não alcançado. Livingstone decidiu partir para a África ainda naquele ano e, em 1845, casou se com Mary, filha de Moffat, tornando se seu genro.

Historiadores reconhecem o trabalho de Moffat como pioneiro, mas também apontam limites: sua tradução da Bíblia e de O Peregrino para o setswana carregava pressupostos culturais e linguísticos do colonizador europeu, e sua abordagem em relação aos costumes tswana é descrita por alguns pesquisadores como paternalista, mais preocupada em substituir hábitos locais por padrões europeus de agricultura e vida do que em compreendê los em profundidade. Estudiosos observam ainda que, apesar de décadas de convívio, Moffat nunca chegou a uma compreensão profunda da cultura africana nem a uma proximidade pessoal com os tswana comparável à que teve, por exemplo, com o rei ndebele Mzilikazi.

Moffat permaneceu na África por 54 anos ao todo, entre chegada e aposentadoria, voltando à Inglaterra em 1870 com a esposa Mary, que morreu em Brixton no ano seguinte, em 1871. Ele viveu ainda mais de uma década, e morreu em 9 de agosto de 1883, em Leigh, no condado de Kent, aos 87 anos, sendo sepultado no cemitério de West Norwood, em Londres. Deixou como legado uma Bíblia em setswana, uma missão consolidada em Kuruman e um genro, Livingstone, que levaria adiante a causa da África que ele tanto amou.

“Eu disse que acreditava que ele serviria, se não fosse para uma estação já ocupada, mas avançasse para terreno ainda não ocupado, a vasta planície ao norte, onde eu já tinha visto, ao sol da manhã, a fumaça de mil aldeias, onde nenhum missionário jamais estivera.”
Robert Moffat · Robert Moffat, citado por William Garden Blaikie em The Personal Life of David Livingstone (1880), ao relatar a conversa que motivou Livingstone a partir para a África
Linha do tempo
1795

Nascimento em Ormiston, Escócia

Filho de família modesta, criado em princípios presbiterianos rígidos pela mãe.

1816

Ingresso na Sociedade Missionária de Londres

Depois de trabalhar como jardineiro na Inglaterra, decide se tornar missionário.

1817

Chegada à Cidade do Cabo

Desembarca em 13 de janeiro, depois de 86 dias de viagem a bordo do navio Alacrity.

1818

Início do trabalho junto a Jager Afrikaner

Vai viver na aldeia do chefe, temido por assaltos e roubos de gado, sucedendo o missionário Johann Ebner, que já o batizara como Christian Afrikaner em 1815.

1819

Casamento com Mary Smith e viagem com Christian Afrikaner

Casa se na Cidade do Cabo em 27 de dezembro e, no mesmo ano, leva o chefe Christian Afrikaner à cidade como prova viva da transformação do evangelho.

1824

Fundação da missão de Kuruman

Instala se de forma permanente entre o povo tswana; os primeiros anos são marcados por poucos resultados.

1840

Novo Testamento em setswana e encontro com Livingstone

Publica o Novo Testamento em setswana em Londres e conhece o jovem David Livingstone, a quem incentiva a ir para a África.

1845

Casamento da filha Mary com Livingstone

Mary Moffat se casa com David Livingstone, que se torna genro de Robert Moffat.

1857

Bíblia completa em setswana

Conclui e publica em Kuruman a primeira Bíblia completa numa língua da África subsaariana.

1870

Retorno à Inglaterra

Encerra 54 anos de missão na África e volta com a esposa Mary, que morre em Brixton no ano seguinte.

1883

Morte em Leigh, Kent

Morre aos 87 anos e é sepultado no cemitério de West Norwood, em Londres.

Obras e marcos

Missão junto a Jager Afrikaner

1818

Vai viver na aldeia do chefe Jager Afrikaner, sucedendo o missionário alemão Johann Ebner, que já o batizara como Christian Afrikaner em 1815. Aprofunda o discipulado do chefe e, no ano seguinte, o leva à Cidade do Cabo como testemunha viva da transformação do evangelho.

Fundação da missão de Kuruman

1824

Instala se de forma permanente entre o povo tswana, ao norte do rio Vaal, base do seu trabalho pelas décadas seguintes.

Tradução do Evangelho de Lucas

1829

Conclui a tradução do Evangelho de Lucas para o setswana, primeiro livro bíblico completo na língua.

Novo Testamento em setswana

1840

Supervisiona em Londres a impressão do Novo Testamento traduzido para o setswana, primeira tradução completa do Novo Testamento numa língua da África subsaariana.

Missionary Labours and Scenes in Southern Africa

1842

Publica em Londres seu relato sobre os povos e a geografia do sul da África, que se torna referência para o público britânico.

Bíblia completa em setswana

1857

Conclui e publica em Kuruman a Bíblia completa, Antigo e Novo Testamento, na língua setswana, depois de cerca de trinta anos de trabalho.

Aposentadoria e retorno à Inglaterra

1870

Encerra 54 anos de carreira missionária na África e retorna à Inglaterra com a esposa Mary.

Contribuições
1

Primeira Bíblia completa numa língua da África subsaariana

Depois de cerca de trinta anos de estudo da língua setswana, Moffat concluiu e publicou em Kuruman, em 1857, a primeira tradução completa da Bíblia para uma língua da África ao sul do Saara.

2

Consolidação da missão de Kuruman

Transformou Kuruman, ocupada de forma permanente em 1824, num polo estável de evangelização, educação e agricultura entre o povo tswana, depois de anos iniciais sem resultados visíveis.

3

Influência direta sobre David Livingstone

Ao descrever as regiões ainda não alcançadas do interior africano a Livingstone, em Londres, ajudou a definir o rumo do jovem missionário, que se tornaria seu genro em 1845.

4

Registro da vida e dos povos do sul da África

Seu livro Missionary Labours and Scenes in Southern Africa, publicado em 1842, tornou se referência sobre os povos e a geografia da região para o público britânico.

Legado missionário

Sua dedicação de décadas a uma só língua e a um só povo, mesmo sem resultados visíveis nos primeiros anos, tornou se modelo para missionários tradutores que vieram depois dele.

Ao apontar a David Livingstone as regiões ainda não alcançadas do interior africano, ajudou a moldar uma geração de missionários voltada a povos sem nenhum acesso ao evangelho.

A missão de Kuruman, consolidada por ele, seguiu como base de apoio para outras expedições e estações missionárias na África austral depois de sua aposentadoria.

Outras pessoas