Quem já confiou de coração em uma causa e depois descobriu que fora enganado conhece o peso dessa queda. George Grenfell viveu essa dor em escala continental: acreditou nas promessas do rei Leopoldo II para o Congo e, anos depois, teve de admitir publicamente o próprio engano.
Nascido em 1849 em Sancreed, na Cornualha, Grenfell perdeu a visão de um olho ainda jovem e cresceu em Birmingham, onde se converteu aos quinze anos na igreja batista de Heneage Street. As histórias do explorador David Livingstone despertaram nele o desejo de servir na África.
Aceito pela Sociedade Missionária Batista em 1874, embarcou para os Camarões ao lado do veterano missionário Alfred Saker. Ali explorou rios e montanhas, casou-se com Mary Hawkes, que morreu menos de um ano depois, e aprendeu o ofício que marcaria sua vida: abrir caminho por terras desconhecidas.
Transferido para o Congo em 1878, Grenfell liderou a construção do vapor Peace, montado por ele mesmo depois que três engenheiros contratados morreram de febre. A pequena embarcação, que ele dizia ter sido orada peça por peça, levou o evangelho a centenas de quilômetros de vias fluviais inexploradas.
Em quatro anos, cartografou mais de 3400 milhas de rios congoleses e recebeu, em 1887, a medalha Founder’s da Royal Geographical Society. Fundou estações missionárias ao longo do Alto Congo e investiu em tradução bíblica, imprensa e ensino de ofícios às comunidades locais.
Por anos, Grenfell aceitou títulos do rei Leopoldo II e serviu como comissário de fronteiras para a Bélgica, convencido de que o Estado Livre do Congo buscava o bem dos povos africanos. Foi um dos que mais tempo resistiram em defender o rei diante das acusações que se acumulavam. O relatório do cônsul britânico Roger Casement, em 1903, expôs as atrocidades da exploração da borracha e o forçou a reconhecer, humilhado, que fora ingênuo.
Renunciou à comissão que deveria proteger os nativos e passou os últimos anos mais cauteloso quanto ao poder colonial. A honra de cavaleiro que recebera de Leopoldo, comparou, com ironia amarga, a uma porta de celeiro com uma aldrava de latão.
Grenfell morreu de febre em Basoko, em 1906, depois de trinta anos de trabalho no Congo. Sua história lembra que missões genuínas pedem discernimento, não apenas boa vontade: confiar demais em poderes humanos, por bem-intencionado que pareça, pode custar caro à causa que se quer servir.