1902–1970

Missionária · Fundadora de orfanato

Gladys Aylward

Resumo
Missionária britânica que se tornou cidadã chinesa e ficou conhecida como Ai-weh-deh, a virtuosa. Combateu o enfaixamento dos pés em Yangcheng e, em 1940, liderou mais de cem crianças órfãs numa travessia a pé pelas montanhas, fugindo do avanço japonês.
Quem foi
Biografia

Gladys Aylward era uma empregada doméstica em Londres, sem talento aparente para línguas, quando sentiu o chamado para ser missionária na China. A agência que a treinava a dispensou por causa da dificuldade com o mandarim. Ela não desistiu: economizou o pouco que tinha e decidiu ir por conta própria.

Em 1930, embarcou sozinha no trem Trans-Siberiano rumo à China, atravessando uma região em conflito entre Rússia e Japão. Foi detida, escapou com ajuda de estranhos e completou a viagem por mar. Em Yangcheng, passou a trabalhar com a missionária mais velha Jeannie Lawson, hospedando tropeiros numa estalagem e contando histórias do evangelho às refeições.

A convivência com Lawson nem sempre foi fácil: as duas discordavam sobre tarefas, e Gladys, teimosa, chegou a considerar deixar a missão. Permaneceu, e depois da morte de Lawson assumiu sozinha a estalagem e o trabalho na região.

O governo chinês a nomeou inspetora contra o enfaixamento dos pés, prática que mutilava meninas ainda crianças. Ela percorreu vilarejos a pé, enfrentando resistência e desconfiança, até conquistar a confiança das famílias. Depois de apaziguar sozinha um motim na prisão local, passou a ser chamada de Ai-weh-deh, a virtuosa. Em 1936, tornou-se cidadã chinesa.

Em 1940, com o avanço japonês ameaçando a região, liderou mais de cem crianças órfãs numa travessia a pé de vários dias pelas montanhas, ferida e febril. Chegou ao destino exausta e nunca mais recuperou a saúde plena.

Anos depois, um livro e um filme popularizaram sua história para o mundo todo, embora ela própria ficasse incomodada com as invenções da versão cinematográfica, sobretudo um romance fictício. Preferia ser lembrada pelo que de fato viveu, não pelo enredo de Hollywood.

Estabeleceu-se em Taiwan em 1958 e fundou um novo lar para crianças órfãs e abandonadas, onde serviu até morrer, em 1970. Sua vida mostra que disposição importa mais do que credenciais: ela dizia que talvez não fosse a primeira escolha de Deus, apenas a que estava disposta.

“Eu não fui a primeira escolha de Deus para o que fiz na China. Não sei quem era, deve ter sido um homem, bem instruído. Não sei o que aconteceu. Talvez tenha morrido. Talvez não estivesse disposto, e Deus olhou e viu Gladys Aylward, e disse: bem, ela está disposta.”
Gladys Aylward · Comentário feito por Gladys Aylward a uma amiga, registrado por Ruth Tucker no livro From Jerusalem to Irian Jaya: A Biographical History of Christian Missions
Linha do tempo
1902

Nascimento em Edmonton, Londres

Filha de um carteiro, trabalhou desde jovem como empregada doméstica.

1930

Parte sozinha para a China

Viaja pelo trem Trans-Siberiano após ser dispensada do treinamento missionário por dificuldade com o idioma.

1930

Chega a Yangcheng

Passa a trabalhar com a missionária Jeannie Lawson na Estalagem das Oito Felicidades.

década de 1930

Nomeada inspetora antienfaixamento

Percorre a região aplicando a nova lei contra o enfaixamento dos pés das meninas.

1936

Recebe a cidadania chinesa

Passa a ser chamada de Ai-weh-deh, a virtuosa, após apaziguar um motim na prisão local.

1940

Travessia das montanhas com os órfãos

Lidera mais de cem crianças numa fuga a pé de vários dias, fugindo do avanço japonês.

1949

Retorna à Inglaterra

Deixa a China com a saúde debilitada, quando a vida de missionários estrangeiros correu risco sob o novo governo comunista.

1958

Estabelece-se em Taiwan

Funda um novo orfanato em Taipei, onde passa a viver e servir.

1970

Morte em Taiwan

Falece aos 67 anos, ainda dedicada ao cuidado das crianças do orfanato.

Obras e marcos

Viagem à China

1930

Após ser dispensada do treinamento missionário por dificuldade com o idioma, partiu sozinha pelo trem Trans-Siberiano, com o pouco dinheiro que havia economizado.

Estalagem das Oito Felicidades

década de 1930

Hospedaria fundada com a missionária Jeannie Lawson em Yangcheng, onde recebia tropeiros e contava histórias do evangelho durante as refeições.

Fim do enfaixamento dos pés em Yangcheng

década de 1930

Nomeada inspetora oficial contra a prática, percorreu vilarejos a pé até vencer a resistência das famílias locais.

Cidadania chinesa e o nome Ai-weh-deh

1936

Naturalizou-se chinesa e recebeu o nome que significa a virtuosa, após apaziguar sozinha um motim na prisão local.

Travessia das montanhas com os órfãos

1940

Liderou mais de cem crianças numa fuga a pé de vários dias, ferida e febril, escapando do avanço japonês.

The Small Woman

1957

Biografia escrita por Alan Burgess que tornou sua história mundialmente conhecida, base do filme A Estalagem da Sexta Felicidade.

Orfanato em Taiwan

1958

Fundou um novo lar para crianças órfãs e abandonadas em Taipé, onde serviu até a morte.

Contribuições
1

Fim de uma prática milenar

Seu trabalho como inspetora ajudou a acelerar o fim do enfaixamento dos pés na região de Yangcheng, livrando gerações de meninas de uma mutilação física.

2

Inserção total na cultura

Adotou a cidadania, o idioma e os costumes chineses até ser vista como uma das próprias, tornando-se referência de missão contextualizada.

3

Coragem em meio à guerra

A travessia das montanhas com as crianças órfãs, ferida e doente, tornou-se símbolo de coragem sacrificial em tempos de conflito.

4

Alcance de sua história

O livro e o filme sobre sua vida, ainda que romantizados em parte, levaram sua história a públicos fora da igreja em todo o mundo.

Legado missionário

Sua disposição de ir sozinha, sem credenciais ideais nem apoio institucional forte, inspira até hoje quem sente o chamado missionário mesmo sem parecer preparado.

O modelo de inserção completa na cultura local, idioma, cidadania, costumes, tornou-se referência para missões que buscam pertencer de verdade ao povo que servem.

Seu cuidado com crianças órfãs e vulneráveis na guerra antecipou o compromisso que hoje marca muitos ministérios de proteção à infância ao redor do mundo.

Sua história, contada e recontada, continua apresentando o evangelho a públicos que nunca ouviram falar de missões.

Outras pessoas