Aos vinte anos, Isobel Miller quase tirou a própria vida depois de ser abandonada pelo noivo. Na beira do desespero, lembrou-se do pai e fez um voto a Deus: se Ele lhe desse paz, ela lhe daria toda a vida. Foi o início de uma história de fé forjada na dor.
Canadense, formada em Letras pela Universidade da Colúmbia Britânica, ela ainda resistiu ao chamado missionário por medo e por oposição da família. Em 1924, numa conferência missionária em Bellingham, no estado americano de Washington, ouviu o missionário James Fraser falar do povo lisu, na China. No ano seguinte foi estudar no Instituto Bíblico Moody, nos Estados Unidos, onde conheceu John Kuhn, seu futuro marido.
Em 1928 embarcou para a China com a Missão para o Interior da China. Casou-se com John em Kunming no ano seguinte e, depois de alguns anos servindo em outras estações da província de Yunnan, a família se estabeleceu, em 1934, entre o povo lisu, em vilarejos isolados nas montanhas.
A vida no campo custou caro. Isobel enfrentou doenças, isolamento e a dor de ver a filha Kathryn, ainda criança, ser enviada para o internato da missão em Chefoo, no litoral chinês. Com a invasão japonesa, Kathryn ficou detida num campo de internamento entre 1941 e 1943 e só se reuniu de novo aos pais em 1944. Isobel também registrou, sem esconder, as noites de solidão, as dúvidas que a fé precisou atravessar e os atritos com o próprio marido, os dois de temperamento forte, num casamento que ela descrevia sem idealização.
Em 1938 ela fundou a Escola Bíblica da Estação Chuvosa, aproveitando a pausa forçada no trabalho agrícola durante as chuvas para formar evangelistas e pastores lisus em meio às montanhas de Yunnan. O método se tornou um dos legados mais duradouros de seu ministério.
Em 1950 a família fugiu da China comunista. Depois de cerca de dois anos nos Estados Unidos, o casal recomeçou o trabalho entre milhares de lisus ainda não evangelizados no norte da Tailândia, a partir de 1952.
Diagnosticada com câncer em 1954, Isobel voltou aos Estados Unidos para tratamento. Foi nesse período final que escreveu boa parte de seus livros, incluindo o relato da fuga dos últimos missionários da China comunista em Green Leaf in Drought.
Isobel Kuhn morreu em 1957, mas seus livros continuam lidos por missionários e igrejas em todo o mundo. Sua vida lembra que a fidelidade a um chamado difícil, sustentada em meio à dúvida e à perda, pode gerar uma igreja que floresce décadas depois.