<p>Poucas pessoas atravessam a violência que sofreram sem se tornarem amargas. John M. Perkins foi uma delas. Filho de uma família de meeiros no Mississippi rural, aprendeu cedo o preço de ser negro no sul segregado dos Estados Unidos.</p>
<p>Nasceu em 16 de junho de 1930, em New Hebron, Mississippi. Perdeu a mãe aos sete meses de idade e foi criado pela avó paterna, numa família extensa que sobrevivia da lavoura de meia. Em 1946, seu irmão mais velho, Clyde, veterano da Segunda Guerra Mundial, foi morto a tiros por um policial da cidade após um desentendimento numa fila de cinema. Temendo por sua segurança, a família o enviou no ano seguinte, em 1947, para a Califórnia.</p>
<p>Na Califórnia, trabalhou numa fundição e se envolveu em organização sindical, casou-se com Vera Mae Buckley em 1951 e, ainda naquele ano, foi convocado para o Exército, servindo em Okinawa. Em 1957, ao acompanhar o filho Spencer a uma classe bíblica infantil, converteu-se ao cristianismo, uma virada que redirecionou o resto da sua vida.</p>
<p>Em 1960, ele e Vera Mae retornaram ao Mississippi, decididos a pregar um evangelho que unisse conversão pessoal e transformação social. Em Mendenhall, começaram a construir o que se tornaria o Voice of Calvary Ministries, fundado formalmente em 1964 e ampliado ao longo da década seguinte com creche, cooperativa agrícola, escola bíblica de liderança e, a partir de 1973, uma clínica de saúde para famílias pobres.</p>
<p>Em fevereiro de 1970, ao tentar libertar jovens presos por participarem de um protesto, Perkins foi detido e espancado com brutalidade na cadeia de Brandon, sede do Rankin County, sofrendo ferimentos que o marcariam pelo resto da vida. Ele relatou que, em meio à dor, sentiu o mesmo amor de Cristo na cruz por seus agressores, e os perdoou.</p>
<p>Desse episódio nasceu a convicção que guiaria seu ministério: reconciliação racial exige, além do perdão, redistribuição de recursos e a decisão de morar entre os pobres. Formulou essa visão nos “três Rs”, relocação, redistribuição e reconciliação, expostos em livros como “A Quiet Revolution” (1976), “Let Justice Roll Down” (1976) e, de forma mais sistemática, “With Justice for All” (1982).</p>
<p>Em 1989, ajudou a fundar a Christian Community Development Association, reunindo igrejas e organizações evangélicas comprometidas com o desenvolvimento de comunidades pobres. Sua ênfase na relocação, pessoas de posses mudando-se para bairros pobres, foi criticada mais tarde por pesquisadores e ativistas que a associaram a processos de gentrificação e deslocamento de moradores negros, um tensionamento que a própria associação que fundou passou a debater abertamente. O próprio Perkins, já perto do fim da vida, reconheceu que a reconciliação racial que pregou por décadas ainda não tinha encontrado uma linguagem adequada, chegando a dizer que os esforços de reconciliação às vezes acabavam antagonizando ainda mais os lados. Perkins morreu em 13 de março de 2026, aos 95 anos, sob cuidados paliativos em sua casa em Jackson, Mississippi, deixando um legado que uniu evangelho e justiça social sem separar um do outro.</p>