1725–1807

Clérigo anglicano · Hinista · Abolicionista

John Newton

Resumo
Clérigo anglicano e hinista inglês, autor do hino Amazing Grace. Foi comandante de navios negreiros antes de sua conversão ao cristianismo e, décadas mais tarde, tornou-se voz pública contra o tráfico que ajudara a sustentar.
Quem foi
Biografia

A canção Amazing Grace é cantada em quase toda língua do mundo, símbolo de recomeço e perdão. Poucos sabem que seu autor foi comandante de navios negreiros antes de se tornar clérigo. A vida de John Newton une, na mesma pessoa, a brutalidade do tráfico humano e a experiência da graça que ele descreveu.

Filho de um capitão mercante, Newton perdeu a mãe aos seis anos e cresceu sem instrução religiosa firme. Ainda jovem, foi recrutado à força pela Marinha Real britânica, tentou desertar e foi publicamente açoitado como punição. Pouco depois, passou a trabalhar em navios negreiros e chegou a ser maltratado como escravo de uma comerciante na Serra Leoa.

Em 10 de março de 1748, em meio a uma tempestade que quase afundou o navio Greyhound, Newton orou pedindo misericórdia enquanto lutava para manter a embarcação à tona. A tempestade passou, e ele atribuiu a sobrevivência à graça de Deus, início lento de sua conversão.

A fé nascente não o afastou de imediato do tráfico de escravos. Casado com Mary Catlett em 1750, Newton voltou ao mar e comandou navios negreiros por mais alguns anos, entre eles o Duke of Argyle e o African. Só um mal súbito, em 1754, encerrou sua carreira marítima. Mesmo assim, seguiu por algum tempo investindo financeiramente nas viagens negreiras do comerciante Joseph Manesty, seu antigo empregador, um detalhe que a memória popular do hino costuma deixar de fora.

Estabelecido como fiscal alfandegário em Liverpool, dedicou-se ao estudo autodidata de teologia, grego e hebraico. Buscou ordenação na Igreja Anglicana por anos, recusado por diversos bispos, até ser ordenado em 1764 e assumir a humilde paróquia de Olney.

Em Olney, formou amizade com o poeta William Cowper. Juntos publicaram, em 1779, o hinário Olney Hymns, com textos escritos para os cultos da paróquia. Entre eles estava Amazing Grace, escrito para um sermão de Ano Novo em 1773, hoje um dos hinos mais conhecidos do mundo.

Já reitor da igreja de St Mary Woolnoth, em Londres, Newton tornou-se mentor espiritual do jovem parlamentar William Wilberforce em 1785, aconselhando-o a permanecer na política. Em 1788, publicou Thoughts Upon the African Slave Trade, confissão pública de sua participação no tráfico, e testemunhou perante o Conselho Privado britânico sobre os horrores que presenciara. Na própria obra, reconheceu que a confissão vinha tarde demais, escrevendo que seria sempre motivo de humilhação ter atuado ativamente num comércio que agora fazia seu coração estremecer.

Newton morreu em dezembro de 1807, meses depois de o Parlamento britânico aprovar a lei que aboliu o tráfico de escravos no império. Sua trajetória, da cabine de um navio negreiro ao púlpito, segue como testemunho de que nenhuma história está longe demais da graça que ele descreveu em seu hino mais famoso, ainda que sua própria demora em romper com o tráfico e em falar publicamente contra ele permaneça parte inseparável dessa história.

“Não sou o que deveria ser, nem o que desejo ser, nem o que espero ser, mas posso dizer que não sou o que já fui.”
John Newton · Cartas devocionais, publicadas em The Works of the Rev. John Newton (1839)
Linha do tempo
1725

Nascimento em Wapping, Londres

Filho de um capitão mercante; perde a mãe aos seis anos.

1743

Recrutamento forçado pela Marinha Real

Tenta desertar e é publicamente açoitado como punição.

1745

Maus-tratos na Serra Leoa

Vive sob condições de escravidão junto a uma comerciante de escravos na costa africana.

10 de março de 1748

Conversão durante tempestade no navio Greyhound

Ora pedindo misericórdia em meio a uma tempestade quase fatal; marco do início de sua fé.

1750

Casamento com Mary Catlett

Retorna ao mar como comandante de navios negreiros.

1754

Fim da carreira no mar

Um mal súbito o afasta da navegação; por algum tempo ainda segue investindo em viagens negreiras de terceiros.

1764

Ordenação e curato em Olney

Assume a paróquia após anos buscando ordenação anglicana.

1779

Olney Hymns e St Mary Woolnoth

Publica o hinário com William Cowper e torna-se reitor em Londres.

1807

Morte em Londres

Falece meses depois de o Parlamento britânico aprovar a lei que aboliu o tráfico de escravos no império.

Obras e marcos

An Authentic Narrative

1764

Relato autobiográfico de sua vida e conversão, publicado em forma de cartas; ajudou a abrir caminho para sua ordenação.

Ordenação e paróquia de Olney

1764

Ordenado clérigo da Igreja Anglicana após anos de estudo autodidata, assume a paróquia da pequena cidade de Olney.

Olney Hymns

1779

Hinário organizado com o poeta William Cowper, reunindo textos escritos para os cultos da paróquia, entre eles Amazing Grace.

Amazing Grace

1773

Hino escrito para um sermão de Ano Novo sobre a graça de Deus na vida de Davi; tornou-se um dos hinos mais cantados da história.

Cardiphonia

1781

Coletânea de cartas pastorais e devocionais, amplamente lida por gerações de cristãos evangélicos.

Thoughts Upon the African Slave Trade

1788

Panfleto abolicionista com confissão pública de sua participação no tráfico de escravos; distribuído a todo o Parlamento britânico.

Contribuições
1

Hinologia devocional

Amazing Grace e outros hinos de Newton se tornaram parte do repertório cristão em praticamente todas as línguas, moldando a espiritualidade popular por mais de dois séculos.

2

Testemunho no debate abolicionista

Como ex-comandante de navios negreiros, deu depoimento direto ao Conselho Privado britânico sobre os horrores do tráfico que presenciara, décadas depois de ter deixado de participar ativamente dele.

3

Mentoria espiritual de William Wilberforce

Aconselhou o jovem parlamentar a permanecer na vida pública em vez de se retirar para o ministério, influenciando a campanha que levou à abolição do tráfico em 1807.

4

Literatura devocional

Suas cartas pastorais, reunidas em Cardiphonia, alimentaram gerações de leitores evangélicos com reflexões sobre graça e caráter cristão.

Legado missionário

Amazing Grace continua sendo cantado em cultos, cruzadas evangelísticas e funerais ao redor do mundo, como narrativa universal de transformação pela graça.

Sua confissão pública do envolvimento no tráfico de escravos, embora tardia por seus próprios critérios, é referência para ministérios cristãos que hoje combatem o tráfico humano e a escravidão moderna.

O modelo de mentoria que exerceu sobre Wilberforce inspira até hoje cristãos leigos a atuar por justiça e reforma social a partir de sua fé.

Sua trajetória de comandante de navio negreiro a pregador é usada em pregações e materiais missionários como ilustração viva da graça alcançando os piores contextos humanos, sem esconder o tempo que levou até essa mudança se traduzir em ação pública.

Outras pessoas