Existe algo assustador na ideia de um erro que dura décadas. Não um deslize de um dia, mas um padrão de vida inteiro construído sobre a escolha errada, repetida ano após ano, até que ninguém mais espera que a pessoa mude. A história de Manassés começa exatamente nesse ponto e termina em um lugar que ninguém imaginaria.
Ele subiu ao trono de Judá com apenas doze anos, filho do rei piedoso Ezequias (2 Reis 21:1). Em vez de seguir o pai, desfez suas reformas: reconstruiu os altares idólatras que Ezequias havia destruído, ergueu um poste sagrado dedicado a Aserá e se prostrou diante dos exércitos celestes (2 Reis 21:3).
Foi além: colocou uma imagem esculpida de ídolo dentro do próprio templo do Senhor em Jerusalém (2 Crônicas 33:7) e queimou o próprio filho em sacrifício, recorrendo a médiuns e adivinhos (2 Reis 21:6).
O Senhor falou a ele e ao povo por meio dos profetas, mas ninguém deu atenção (2 Crônicas 33:10). Manassés derramou tanto sangue inocente que encheu Jerusalém de um extremo a outro (2 Reis 21:16).
Então, no auge do seu poder, tudo mudou. Comandantes do exército assírio prenderam Manassés, puseram um gancho em seu nariz e algemas de bronze em seus punhos, e o levaram para a Babilônia (2 Crônicas 33:11).
Foi ali, no fundo do poço, que algo se quebrou dentro dele. Em sua angústia, buscou o favor do Senhor e se humilhou diante do Deus dos seus antepassados (2 Crônicas 33:12), e o Senhor o ouviu, atendeu ao seu pedido e o trouxe de volta a Jerusalém e ao seu reino (2 Crônicas 33:13).
Manassés não voltou apenas arrependido de boca. Removeu com as próprias mãos os ídolos que havia introduzido no templo, restaurou o altar do Senhor e ordenou a Judá que voltasse a servir ao Deus de Israel (2 Crônicas 33:15-16). Ainda assim, o povo manteve hábitos incompletos de culto (2 Crônicas 33:17), e seu próprio filho Amom escolheria de novo o caminho da idolatria, sem se humilhar como o pai (2 Crônicas 33:22-23).
A vida de Manassés incomoda porque desmonta duas mentiras confortáveis: a de que alguém pode pecar por tanto tempo que já não há volta, e a de que o arrependimento de um pai garante o caráter do filho. Nenhuma das duas é verdade. Há sempre uma porta aberta para quem se humilha diante de Deus, mas cada geração precisa atravessá-la por conta própria.
