1858–1922

Missionária · Tradutora das Escrituras

Pandita Ramabai

Resumo
Erudita indiana que se tornou pandita em sânscrito, converteu-se ao cristianismo na Inglaterra e dedicou a vida a acolher viúvas e órfãs na Índia. Fundou a Missão Mukti e traduziu a Bíblia inteira para o marati a partir do hebraico e do grego.
Quem foi
Biografia

Ramabai nasceu em Mangalore, na Índia, em 23 de abril de 1858, filha de um brâmane que, contra o costume de sua época, ensinou sânscrito às filhas. Ainda jovem, percorreu lugares de peregrinação recitando textos sagrados e testemunhou de perto o sofrimento imposto às viúvas e meninas de sua cultura.

Aos vinte anos, em 1878, foi reconhecida pela Universidade de Calcutá com os títulos de pandita e sarasvati, um feito raro para uma mulher naquele tempo. Casou-se em 1880 com Bipin Behari Medhavi, advogado de outra casta, mas ficou viúva já em 1882, quando o cólera o matou, deixando-a sozinha com a filha recém-nascida, Manorama.

Em 1883, durante uma temporada na Inglaterra, Ramabai foi batizada pela comunidade anglicana de Wantage. Sua fé, porém, não nasceu pronta: por anos ela questionou doutrinas como a Trindade e a divindade de Cristo, aproximando-se por um tempo de ideias unitaristas, até viver uma experiência de conversão mais evangélica em 1891.

De volta à Índia em 1889, abriu o Sharada Sadan, uma casa e escola para viúvas repudiadas por suas famílias, primeiro em Bombaim e depois transferida para Pune. Quando várias alunas se converteram ao cristianismo, perdeu o apoio de círculos hindus reformistas que antes a sustentavam.

Durante a fome que assolou Maharashtra em 1896, Ramabai percorreu vilarejos resgatando milhares de crianças, viúvas e mulheres abandonadas, trazendo-as para abrigo. Esse trabalho deu origem, em 1898, à Missão Mukti, transferida para o vilarejo de Kedgaon. O método, porém, não foi isento de crítica: líderes nacionalistas indianos da época, como Bal Gangadhar Tilak, acusaram Ramabai de se aproveitar da fragilidade de órfãs e viúvas famintas para convertê-las ao cristianismo, um debate que ainda hoje historiadores discutem ao avaliar sua obra.

Em 1905, um período de oração intensa entre as mulheres de Mukti resultou num avivamento marcado por confissão, lágrimas e relatos de dons espirituais, hoje estudado como um dos primeiros focos do pentecostalismo fora do Ocidente, ao lado do avivamento de Azusa Street, nos Estados Unidos. O episódio também gerou controvérsia entre observadores da época, que discordavam sobre a natureza dos fenômenos vividos pelas internas.

Sabendo hebraico, grego e outras línguas, Ramabai passou cerca de dezoito anos, a partir de 1904, traduzindo a Bíblia inteira para o marati, evitando o vocabulário sânscrito que soava distante às mulheres pobres e de castas baixas, seu público alvo desde sempre.

Perdeu a filha Manorama em 1921 e morreu em Kedgaon, em 5 de abril de 1922, dias depois de concluir a revisão final de sua tradução. Deixou um legado de tradução acessível das Escrituras e de acolhimento às mulheres mais vulneráveis da Índia.

Linha do tempo
1858

Nascimento em Mangalore

Filha de um brâmane que, contra o costume, ensinou sânscrito às filhas.

1880

Casamento com Bipin Behari Medhavi

União entre castas diferentes, incomum para a época.

1882

Fica viúva

O marido morre de cólera, deixando-a sozinha com a filha Manorama.

1883

Batismo na Inglaterra

Batizada pela comunidade anglicana de Wantage após período de estudo e dúvidas teológicas.

1889

Fundação do Sharada Sadan

Casa e escola para viúvas indianas, aberta primeiro em Bombaim.

1898

Fundação da Missão Mukti

Transfere a obra para Kedgaon após perder o apoio de círculos hindus reformistas.

1905

Reavivamento de Mukti

Semanas de oração resultam em avivamento espiritual entre as mulheres da missão, episódio também questionado por alguns observadores da época.

1922

Morte em Kedgaon

Falece dias após concluir a tradução da Bíblia em marati.

Obras e marcos

A Mulher Hindu de Alta Casta

1887

Livro publicado nos Estados Unidos que expôs o sofrimento das viúvas e crianças-noivas indianas, mobilizando apoio para sua missão.

Fundação do Sharada Sadan

1889

Casa e escola para viúvas e meninas repudiadas por suas famílias, aberta primeiro em Bombaim e depois transferida para Pune.

Resgate durante a fome de Maharashtra

1896

Percorreu vilarejos resgatando milhares de crianças, viúvas e mulheres abandonadas durante a fome de 1896, trazendo-as para abrigo.

Fundação da Missão Mukti

1898

Estabeleceu em Kedgaon o abrigo que reuniria escola, oficinas de trabalho e assistência às mulheres mais vulneráveis da Índia.

Reavivamento de Mukti

1905

Um período de oração entre as mulheres da missão resultou num avivamento espiritual estudado hoje como um dos primeiros focos do pentecostalismo fora do Ocidente.

Tradução da Bíblia em marati

1904-1922

Passou cerca de dezoito anos traduzindo as Escrituras do hebraico e do grego para o marati, concluindo a revisão final pouco antes de morrer.

Contribuições
1

Pioneira da educação de mulheres

Foi a primeira mulher reconhecida com os títulos de pandita e sarasvati pela Universidade de Calcutá, abrindo caminho para o estudo formal de mulheres indianas.

2

Modelo de acolhimento social cristão

Criou, no Sharada Sadan e na Missão Mukti, um modelo de abrigo que unia educação, trabalho e fé, servindo de referência para obras sociais cristãs na Índia.

3

Tradução bíblica acessível

Ao traduzir a Bíblia para o marati evitando o vocabulário sânscrito erudito, tornou as Escrituras compreensíveis para mulheres pobres e de castas baixas, historicamente excluídas do estudo religioso.

4

Voz pública contra o sofrimento das viúvas

Seus escritos e palestras nos Estados Unidos, como A Mulher Hindu de Alta Casta, expuseram internacionalmente a condição das viúvas indianas e mobilizaram apoio para sua obra.

Legado missionário

A Missão Mukti segue ativa até hoje, unindo obra social e cuidado espiritual a mulheres e crianças vulneráveis na Índia.

O reavivamento de Mukti, em 1905, é estudado como um dos berços do pentecostalismo fora do Ocidente, ao lado do avivamento de Azusa Street.

Sua tradução da Bíblia em marati, pensada para mulheres pobres e de castas baixas, inspira até hoje traduções bíblicas voltadas a públicos marginalizados.

Abriu espaço para que mulheres indianas liderassem obras missionárias e sociais dentro da igreja, num tempo em que isso era raro.

Outras pessoas