Todo mundo já guardou um diploma, um cargo ou uma conquista como prova do próprio valor. É difícil imaginar abrir mão disso sem medo de sobrar pouco de quem se é. A história de Song Shangjie, batizado no Ocidente como John Sung, começa exatamente nessa pergunta, feita no meio do oceano.
Nascido em 27 de setembro de 1901 em Putian, na província de Fujian, na China, ele era filho de um pastor metodista e, ainda menino, pregava aos colegas, o que lhe deu o apelido de pequeno pastor. Em 1920 embarcou para os Estados Unidos, onde escolheu estudar química, não teologia.
Formou-se na Ohio Wesleyan University e concluiu o doutorado em química na Ohio State University em 1926, em apenas seis anos. Com um futuro promissor de cientista, entrou no Union Theological Seminary, em Nova York, para cumprir uma promessa antiga de estudar teologia.
Em 10 de fevereiro de 1927, numa reunião evangelística, viveu uma conversão que descreveu como um novo nascimento. Seu ardor incomodou os líderes do seminário, que o internaram num hospital psiquiátrico perto de Nova York por vários meses. Ali, leu a Bíblia inteira dezenas de vezes até ser liberado, com a ajuda do consulado chinês.
Ao voltar para a China, em novembro de 1927, jogou ao mar seus diplomas e medalhas, guardando só o certificado de doutor para o pai, e passou a vestir uma túnica simples de camponês. Era um sinal claro: dali em diante, viveria só para o evangelho.
Pregou primeiro em Fujian, integrou a Banda Evangelística Bethel a partir de 1931 e, já independente, percorreu a China e o Sudeste Asiático entre 1935 e 1940. Usava quadros, dramatizações e até um pequeno caixão como símbolo do pecado, num estilo direto que também gerava crítica.
Esse ritmo cobrou um preço alto. Fístulas contraídas nos anos de estudo exigiram várias cirurgias, e ele ficava fora de casa quase o ano inteiro, ausente até no nascimento dos próprios filhos. Nos últimos anos, uma tuberculose intestinal o forçou a pregar reclinado, até morrer perto de Pequim, aos 42 anos.
Ele mesmo escreveu, em seu diário, que sem grande tribulação não há grande iluminação. Sua vida não é um modelo de equilíbrio, mas um lembrete de que Deus usa vasos cansados e imperfeitos para acender igrejas inteiras, hoje como na China do século vinte.