Poucas vezes uma sala de aula em Cambridge ficou tão cheia quanto quando Thomas Cartwright subia à cátedra para comentar o livro de Atos. Estudantes lotavam os corredores para ouvir um professor que parecia dizer, sem meias palavras, que a igreja da Inglaterra precisava voltar ao modelo dos apóstolos.
Nascido por volta de 1535, provavelmente em Royston, Hertfordshire, Cartwright cresceu em meio às reviravoltas religiosas dos reinados de Maria I e Elizabeth I. Entrou jovem em Cambridge, primeiro em Clare Hall, depois no St John’s College e no Trinity, onde se tornou um dos eruditos mais admirados de sua geração.
Em 1569 tornou-se professor de teologia da cátedra Lady Margaret, o posto mais cobiçado da universidade. Suas aulas defendiam que bispos e arcebispos não tinham base nas Escrituras, e que a igreja deveria ser governada por presbíteros, à maneira das primeiras comunidades cristãs.
A ousadia teve preço alto. Em 1570, o próprio vice-chanceler John Whitgift, mais tarde arcebispo da Cantuária, tirou-lhe a cátedra; no ano seguinte, perdeu também a vaga no Trinity. Cartwright partiu para o continente, passou uma temporada com o reformador Teodoro Beza em Genebra e, ao voltar à Inglaterra em 1572, envolveu-se na defesa pública de um panfleto que pedia reforma da disciplina eclesiástica.
Seguiu-se uma longa disputa por escrito com Whitgift, a Controvérsia da Admoestação, que tornou Cartwright o nome mais conhecido do presbiterianismo inglês. Perseguido, viveu boa parte de treze anos fora da Inglaterra, pastoreando comunidades de comerciantes ingleses em Antuérpia, na atual Bélgica, e em Middelburg, na atual Holanda.
Contemporâneos reconheciam sua erudição em latim, grego e hebraico, mas também apontavam um temperamento impulsivo: nos debates, deixava-se levar pela impetuosidade, e ao menos um crítico o descreveu como um disputador contencioso, de maneiras pouco gentis. Cartwright nunca escondeu a convicção com moderação.
De volta à Inglaterra em 1585, tornou-se mestre do hospital do conde de Leicester em Warwick, cargo que ocupou até morrer. Ainda assim, foi preso na prisão de Fleet entre 1590 e 1592, por recusar-se a prestar, sob juramento, o depoimento exigido pela alta comissão eclesiástica contra seus próprios companheiros puritanos.
Cartwright morreu em Warwick em 27 de dezembro de 1603, dois dias depois de pregar pela última vez, no dia de Natal, tendo por texto justamente Eclesiastes 12:7. Deixou inacabada a obra que mais lhe custara, uma refutação do Novo Testamento católico de Reims, publicada só quinze anos depois de sua morte. Sua visão de uma igreja regida pela Escritura, e não pela tradição, segue viva onde cristãos discutem como a Bíblia deve moldar a vida da comunidade.