William Wilberforce nasceu em Hull, na Inglaterra, filho de um próspero comerciante, e cresceu entre conforto material e vida social intensa. Eleito para o Parlamento britânico aos 21 anos, ainda estudante em Cambridge, parecia destinado a uma carreira política talentosa, mas sem maior propósito espiritual.
Entre 1784 e 1785, uma longa viagem pela Europa ao lado de Isaac Milner, seu antigo professor em Hull, mudou o rumo de sua vida. A leitura do livro devocional de Philip Doddridge e conversas sobre fé o levaram a uma conversão evangélica profunda, que ele chamaria depois de sua grande mudança.
Em crise, Wilberforce cogitou abandonar a política para se tornar clérigo. O pastor John Newton, autor do hino Amazing Grace e ex-capitão de navio negreiro, o aconselhou a permanecer no Parlamento e ali colocar sua fé recém-descoberta a serviço do país.
Em outubro de 1787, Wilberforce escreveu em seu diário que Deus lhe apresentara dois grandes objetivos: a supressão do tráfico de escravos e a reforma dos costumes da nação. Naquele mesmo ano, uniu-se a Thomas Clarkson, Granville Sharp e outros ativistas abolicionistas.
Por vinte anos, apresentou repetidos projetos contra o tráfico negreiro no Parlamento, enfrentando derrotas e a resistência de interesses econômicos poderosos ligados ao comércio de escravos. Em 1807, o Slave Trade Act finalmente proibiu esse comércio em todo o Império Britânico.
Sua trajetória, porém, não foi isenta de contradições. Wilberforce apoiou o Combination Act de 1799, que baniu a organização de trabalhadores britânicos, chegando a chamar os sindicatos de doença geral da sociedade, e votou por medidas que suspenderam o habeas corpus e restringiram reuniões públicas no país. Isso lhe valeu a acusação, feita por críticos contemporâneos como William Cobbett, de nunca ter feito nada em favor dos trabalhadores pobres da Inglaterra enquanto lutava pelos escravizados no exterior.
Wilberforce também ajudou a fundar a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, a Church Missionary Society e, em 1824, integrou o grupo fundador da primeira sociedade de proteção aos animais do mundo. Em 1797, publicou Uma Visão Prática do Cristianismo, obra que se tornou best-seller e reacendeu o fervor evangélico entre a elite britânica.
Já doente e enfraquecido, Wilberforce viveu para saber que o projeto de abolição da escravidão fora assegurado no Parlamento, três dias antes de morrer. Foi sepultado na Abadia de Westminster, e sua vida segue como símbolo de como fé pessoal pode se traduzir em transformação social duradoura, ainda que marcada por contradições em relação aos pobres de seu próprio país.