Um homem simples, filho de um funileiro, quase sem instrução formal, torna-se o autor do livro mais lido do mundo cristão depois da Bíblia. A vida de John Bunyan mostra como Deus pode usar um vaso comum para deixar marca profunda na fé de gerações inteiras.
Nascido perto de Bedford, na Inglaterra, e batizado em 30 de novembro de 1628, Bunyan aprendeu o ofício do pai e, aos dezesseis anos, serviu no exército parlamentar. Por sua própria conta em Graça Abundante, os anos de juventude foram marcados por praguejar, jogos e uma consciência inquieta.
Casou-se por volta de 1649 com uma jovem cujo único dote foram dois livros devocionais deixados pelo pai dela. A leitura desses livros, somada à pregação que ouvia em Bedford, deu início a uma longa crise espiritual, descrita depois com riqueza de detalhes em sua autobiografia.
Por volta de 1653, Bunyan uniu-se à igreja separatista de Bedford e logo passou a pregar, atraindo multidões com sua linguagem simples e vívida. Depois da Restauração de Carlos II, pregar fora da Igreja Anglicana virou crime, e em 1660 ele foi preso por se recusar a parar.
Passou doze anos na prisão do condado, sustentando a família com a venda de cordões de sapato feitos atrás das grades; sua filha mais velha, cega de nascença, o visitava com frequência trazendo comida. Foi solto em 1672 e tornou-se pastor da igreja de Bedford.
Em 1674, um episódio abalou sua reputação: ao permitir que a jovem Agnes Beaumont, da igreja de Bedford, montasse na garupa de seu cavalo a caminho de uma pregação, viu o pai dela, contrário à participação da filha nos cultos, morrer subitamente pouco depois. Espalharam-se rumores de envenenamento e de um caso entre os dois; um júri concluiu que a morte fora natural e ambos foram isentados, mas Bunyan precisou se defender das insinuações mesmo em edições posteriores de sua autobiografia.
Uma nova e breve prisão, entre 1676 e 1677, lhe deu tempo para concluir O Peregrino, publicado em 1678. O livro narra a jornada do personagem Cristão rumo à Cidade Celestial, numa alegoria que qualquer leitor comum conseguia entender e sentir como própria.
Bunyan também escreveu tratados polêmicos contra grupos como os quacres, revelando a aspereza teológica comum ao seu tempo e às disputas entre dissidentes ingleses. Morreu em Londres em 1688, após pegar febre numa viagem a cavalo debaixo de chuva, e foi sepultado em Bunhill Fields.
Sua história lembra que a prisão pode ser também um púlpito: das grades de Bedford saiu um livro que atravessou línguas, continentes e séculos, conduzindo peregrinos comuns a enxergar a própria caminhada rumo à cidade que Deus preparou.