1792–1875

Evangelista · Advogado

Charles Finney

Resumo
Advogado americano que abandonou a carreira jurídica após uma conversão em 1821 e se tornou o evangelista mais influente do Segundo Grande Despertamento. Suas novas medidas de pregação moldaram o revivalismo evangélico, e como professor e presidente do Oberlin College defendeu a inclusão de negros e mulheres na educação.
Quem foi
Biografia

Poucas pessoas trocam a sala de tribunal pelo púlpito da noite para o dia. Charles Finney fez exatamente isso: era um advogado promissor no interior de Nova York quando, em outubro de 1821, uma experiência de conversão na floresta mudou o rumo de sua vida e, com ela, o rosto do avivalismo americano.

Nascido em 1792, em Warren, Connecticut, Finney cresceu em uma família que se mudou cedo para o oeste do estado de Nova York, região que ficaria conhecida como distrito incendiado pelos reavivamentos que a atravessaram. Estudou direito no escritório de um advogado em Adams, Nova York, e chegou a atuar na profissão.

Em 10 de outubro de 1821, depois de meses lendo a Bíblia por causa de referências à lei mosaica em seus estudos jurídicos, Finney teve uma conversão que descreveu como decisiva. Na manhã seguinte, recusou um cliente dizendo que agora advogava a causa de Cristo, não mais causas civis.

Licenciado como ministro presbiteriano em 1824, Finney levou ao púlpito a linguagem direta que usava diante de júris. Introduziu métodos que ficaram conhecidos como novas medidas: reuniões diárias, o banco dos aflitos para os que buscavam conversão e a oração pública de mulheres em cultos mistos.

Essas práticas provocaram forte resistência. Teólogos presbiterianos conservadores, como Charles Hodge, de Princeton, acusaram sua teologia de esvaziar a doutrina da graça soberana e aproximar-se do pelagianismo, ao ensinar que a santificação plena estava ao alcance da vontade humana. A controvérsia dividiu igrejas presbiterianas por décadas.

Entre 1830 e 1831, liderou um dos maiores reavivamentos do Segundo Grande Despertamento, na cidade de Rochester, Nova York, com milhares de conversões relatadas. Em 1832, tornou-se pastor da Chatham Street Chapel, em Nova York, e passou a excluir da Ceia os que possuíam ou negociavam escravos.

Em 1835, aceitou a cátedra de teologia no Oberlin Collegiate Institute, fundado dois anos antes, condicionando sua ida à admissão de estudantes negros e à liberdade de expressão na instituição. Foi o segundo presidente do Oberlin College, de 1851 a 1866, formando gerações de pregadores e reformadores sociais.

Já em Oberlin, Finney foi além das novas medidas de pregação: chegou a negar a doutrina tradicional do pecado original e a explicação penal substitutiva da expiação de Cristo, e formulou, ao lado do presidente Asa Mahan, uma doutrina de perfeição cristã segundo a qual o crente poderia alcançar santificação completa ainda nesta vida. A proposta surgiu, em parte, como resposta ao número de convertidos de seus reavivamentos que depois recuavam na fé, mas o chamado perfeccionismo de Oberlin foi visto, então e hoje, por muitos evangélicos e teólogos reformados como um desvio da ortodoxia histórica.

O legado de Finney atravessa fronteiras denominacionais: o apelo público ao arrependimento, hoje comum em cultos evangélicos, remonta em boa parte às suas novas medidas. Sua convicção de que o reavivamento exige meios humanos usados com fé segue inspirando quem trabalha pela conversão das nações, ainda que suas formulações teológicas continuem sendo objeto de debate entre os próprios evangélicos.

“Não é um milagre, nem depende de milagre algum. É um resultado puramente filosófico do uso correto dos meios instituídos, assim como qualquer outro efeito produzido pela aplicação de meios.”
Charles Finney · Lectures on Revivals of Religion, 1835, primeira lição
Linha do tempo
1792

Nascimento em Warren, Connecticut

1818

Início dos estudos de direito

Entra para um escritório de advocacia em Adams, Nova York, onde referências à lei mosaica o levam a estudar a Bíblia.

10 out 1821

Conversão na floresta de Adams

Abandona a advocacia na manhã seguinte, dizendo que agora advogava a causa de Cristo.

1824

Ordenação e casamento com Lydia Root Andrews

Licenciado como ministro presbiteriano.

1830-1831

Reavivamento de Rochester

Um dos ápices do Segundo Grande Despertamento nos Estados Unidos.

1832

Pastor em Nova York

Passa a excluir escravistas da Ceia na Chatham Street Chapel.

1835

Lectures on Revivals of Religion e cátedra em Oberlin

Publica seu livro mais influente e assume a teologia sistemática do Oberlin Collegiate Institute.

1851

Torna-se presidente do Oberlin College

Permanece no cargo até 1866.

1875

Morte em Oberlin, Ohio

Obras e marcos

Conversão e abandono da advocacia

1821

Aos 29 anos, deixou a carreira jurídica em Adams, Nova York, após uma experiência de conversão que descreveu como decisiva, para se dedicar à pregação.

Reavivamento de Rochester

1830-1831

Liderou um dos maiores reavivamentos do Segundo Grande Despertamento, na cidade de Rochester, Nova York, com milhares de conversões relatadas.

Lectures on Revivals of Religion

1835

Publicou o livro que sistematizou suas novas medidas de pregação e reavivamento, tornando-se referência para gerações de evangelistas.

Broadway Tabernacle

1836

Tornou-se o primeiro pastor do Broadway Tabernacle, templo erguido em Nova York para acomodar as multidões atraídas por seus cultos.

Cátedra de teologia em Oberlin

1835

Assumiu a cadeira de teologia sistemática do Oberlin Collegiate Institute, condicionando sua ida à admissão de estudantes negros.

Lectures on Systematic Theology

1846

Reuniu em livro sua teologia sistemática, incluindo a defesa da capacidade moral humana e da perfeição cristã, que geraria intensa controvérsia entre teólogos reformados.

Presidência do Oberlin College

1851-1866

Foi o segundo presidente do Oberlin College, sucedendo Asa Mahan, em uma das primeiras instituições dos Estados Unidos a admitir mulheres e estudantes negros.

Contribuições
1

Reavivalismo como método

Popularizou a ideia de que o reavivamento resulta do uso correto de meios humanos, e não apenas de uma ação soberana e imprevisível, mudando a prática evangelística norte-americana.

2

Abolicionismo e inclusão em Oberlin

Condicionou sua ida ao Oberlin College à admissão de estudantes negros, contribuindo para que a instituição se tornasse pioneira na educação integrada e no acesso de mulheres ao ensino superior.

3

Controvérsia teológica

Sua defesa da capacidade moral humana para a santificação, sua negação do pecado original e da explicação penal substitutiva da expiação foram condenadas por teólogos reformados como Charles Hodge, que as viam como uma aproximação perigosa do pelagianismo; a disputa marcou décadas de debate presbiteriano.

4

Literatura teológica

Suas obras Lectures on Revivals of Religion e Lectures on Systematic Theology tornaram-se textos de referência, estudados e debatidos muito além de sua própria tradição.

Legado missionário

O apelo público ao arrependimento e a ênfase na decisão pessoal, centrais em suas novas medidas, tornaram-se prática comum em campanhas evangelísticas e missões ao redor do mundo.

Sua convicção de que métodos humanos, usados com fé, podem ser instrumentos de Deus inspirou gerações de evangelistas e organizadores de campanhas de evangelização em massa.

O modelo de Oberlin, unindo formação teológica, reforma social e inclusão racial, influenciou instituições que viam educação e justiça como parte do chamado evangelístico.

A ênfase na santidade prática e na busca de uma vida cristã plena alimentou, direta ou indiretamente, correntes do movimento de santidade que mais tarde impulsionariam missões transculturais, ainda que a doutrina da perfeição cristã de Finney tenha sido rejeitada pela maior parte da tradição reformada.

Outras pessoas