Amy Carmichael cresceu numa família cristã da Irlanda, a mais velha de sete irmãos. Ainda jovem, num episódio de ajudar uma mulher pobre a carregar um embrulho pelas ruas de Belfast, sentiu-se marcada por um versículo sobre o que resta quando o fogo prova a obra de cada um. Decidiu ali que só o eterno valeria a pena.
Em 1887, no Keswick Convention, ouviu Hudson Taylor falar sobre a China e sentiu o chamado para as missões. Passou a viver na casa de Robert Wilson, um dos fundadores daquele encontro, que se tornou como um pai para ela. Em 1893 partiu para o Japão, sua primeira experiência missionária.
A saúde frágil a tirou do Japão e de uma breve passagem pelo Ceilão. Em 1895 chegou ao sul da Índia pela Church of England Zenana Missionary Society. Ali aprendeu tâmil e passou a viajar com um grupo de mulheres indianas cristãs em evangelização itinerante pelas aldeias.
Em 1901 uma menina de sete anos chamada Preena fugiu de um templo hindu, onde fora entregue para servir como devadasi, e buscou abrigo com Amy. Esse encontro mudou o rumo do seu trabalho: dali em diante, resgatar crianças da exploração religiosa nos templos tornou-se sua missão central.
Nasceu assim o que se tornaria a Missão Dohnavur. Ao longo de décadas, mais de mil crianças foram acolhidas ali, muitas resgatadas de templos, outras entregues por famílias sem condição de sustentá-las. Amy era chamada de Amma, mãe, por todos em Dohnavur.
Sua liderança era rígida e, por vezes, dura demais: exigia obediência estrita e usava métodos de disciplina hoje reconhecidos como severos para o padrão infantil, o que gerou atrito com colaboradores. O caso mais documentado é o do missionário Stephen Neill, que chegou a Dohnavur em 1924 para ajudar no trabalho com os meninos e, após divergências teológicas e sobre método disciplinar, foi afastado da missão no fim de 1925. A biografia de Elisabeth Elliot, A Chance to Die, registra esse lado mais autoritário e difícil de sua personalidade, pouco explorado pelas biografias mais antigas e elogiosas.
Em 24 de outubro de 1931 sofreu uma queda grave, fraturando a perna e torcendo a coluna, o que a deixou praticamente acamada pelos vinte anos seguintes, até o fim da vida. Mesmo assim continuou escrevendo, e produziu cerca de catorze dos seus 35 livros nesse período de reclusão, recebendo visitas e orientando a missão de dentro do próprio quarto.
Morreu em Dohnavur em 1951, sem nunca ter voltado à Europa desde que chegou à Índia, 55 anos antes. Pediu que não erguessem lápide com seu nome sobre o túmulo, apenas a palavra Amma. A Missão Dohnavur segue funcionando até hoje.