Atanásio de Alexandria
296–373

Bispo · Teólogo · Apologista

Atanásio de Alexandria

Domínio público, via Wikimedia Commons · fonte

Resumo
Bispo de Alexandria e um dos maiores teólogos da igreja primitiva, defendeu a divindade plena e eterna de Cristo diante da heresia ariana. Pagou o preço com cinco exílios ao longo de mais de quarenta anos de ministério, mas ajudou a firmar as bases do credo niceno professado até hoje.
Quem foi
Biografia

No Egito do século IV, um jovem funcionário da igreja de Alexandria acompanhava, ao lado de bispos mais velhos, o debate que definiria o cristianismo: Jesus é plenamente Deus, ou uma criatura, por mais elevada que fosse? Atanásio passou a vida inteira respondendo a essa pergunta.

Nasceu por volta de 296, em Alexandria, cidade grega e egípcia ao mesmo tempo, centro de estudos bíblicos e filosóficos. Ainda jovem, tornou-se diácono e secretário do bispo Alexandre, servindo como assistente pessoal nos debates teológicos da época.

Em 325, acompanhou Alexandre ao Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino para resolver a controvérsia ariana, que negava a eternidade do Filho de Deus. Como diácono e secretário, não tinha voto, e historiadores hoje avaliam que seu papel formal no concílio foi limitado; ainda assim, saiu de Niceia decidido a defender aquele credo pelo resto da vida.

Em 328, três anos depois, foi eleito bispo de Alexandria, sucedendo Alexandre. A partir daí, tornou-se o principal defensor da fé niceana, escrevendo tratados que sustentavam a divindade plena de Cristo contra os seguidores de Ário.

Sua firmeza custou caro: foi deposto e exilado cinco vezes, por ordem de quatro imperadores diferentes, somando mais de dezessete anos fora de Alexandria. Passou por Trier, Roma e o deserto egípcio, onde conviveu com monges. Ficou conhecido pela expressão, cunhada por outros, “Atanásio contra o mundo”.

Em sínodos hostis, adversários arianos e meletistas o acusaram de violência contra rivais no Egito, incluindo o caso do bispo meletista Arsênio, dado como morto e mutilado por ordem sua; Arsênio reapareceu vivo, e a acusação caiu. Ainda assim, historiadores reconhecem que seu governo em Alexandria foi marcado por embates ásperos e pouco conciliadores com opositores, meletistas e arianos, incluindo denúncias de pressão e força contra clérigos rivais.

Nos anos finais, buscou reconciliar as facções nicenas pelo Tomo aos Antioquenos, de 362, e, em 367, listou pela primeira vez os 27 livros do Novo Testamento como os conhecemos hoje, em sua 39ª Carta Festal. Morreu em Alexandria em 2 de maio de 373.

A convicção que defendeu, de que o Filho é da mesma substância do Pai, sustenta até hoje a pregação do evangelho em todas as línguas: sem um Cristo plenamente Deus, a salvação anunciada pelas missões perderia seu fundamento.

“Ele se fez homem para que nós nos tornássemos Deus.”
Atanásio de Alexandria · Sobre a Encarnação do Verbo (De Incarnatione), 54.3
Linha do tempo
296

Nascimento em Alexandria

Nasce por volta desse ano em Alexandria, no Egito romano, região de forte tradição cristã e filosófica.

c. 318

Escreve Sobre a Encarnação

Ainda jovem, antes de se tornar bispo, redige o tratado que se tornaria clássico da teologia cristã.

325

Concílio de Niceia

Participa como diácono e secretário do bispo Alexandre, presenciando a formulação do credo que defenderia pelo resto da vida.

328

Eleito bispo de Alexandria

Sucede Alexandre à frente da igreja da cidade, cargo que ocupará, com interrupções, por 45 anos.

335–337

Primeiro exílio

Deposto pelo Sínodo de Tiro sob acusações depois desmentidas, é banido para Trier pelo imperador Constantino.

339–346

Segundo exílio

Refugia-se em Roma, onde é acolhido pelo bispo Júlio I.

356–362

Terceiro exílio

Foge para o deserto egípcio e vive entre monges, período em que escreve parte de sua obra; retorna a Alexandria em fevereiro de 362.

362–363

Quarto exílio

Expulso poucos meses depois pelo imperador Juliano, por ter voltado sem autorização; esconde-se no deserto até a morte do imperador.

365–366

Quinto exílio

Banido mais uma vez, agora pelo imperador ariano Valente; retorna a Alexandria meses depois, após pressão da população local.

367

39ª Carta Festal

Lista pela primeira vez os 27 livros do Novo Testamento na forma reconhecida até hoje.

373

Morte em Alexandria

Morre em 2 de maio, após 45 anos de episcopado marcados por cinco exílios.

Obras e marcos

Sobre a Encarnação do Verbo

c. 318

Tratado escrito ainda jovem, antes do episcopado, expondo por que o Filho de Deus se fez homem.

Discursos contra os Arianos

c. 339–346

Principal obra teológica contra o arianismo, defendendo que o Filho é da mesma substância do Pai.

Vida de Antão

c. 360

Biografia do monge egípcio Antão, que difundiu o ideal da vida monástica pelo Ocidente cristão.

Cartas a Serapião sobre o Espírito Santo

c. 359–360

Defende a plena divindade do Espírito Santo diante de quem a negava, ampliando o debate trinitário.

Tomo aos Antioquenos

362

Documento que ajudou a reconciliar facções nicenas divididas após a morte do imperador Juliano.

39ª Carta Festal

367

Primeiro registro histórico dos 27 livros do Novo Testamento na lista hoje reconhecida pela igreja.

Apologia contra os Arianos

c. 350

Reúne documentos e cartas em sua própria defesa diante das acusações movidas por adversários arianos.

Contribuições
1

Defesa da divindade de Cristo

Consolidou o argumento teológico que sustenta o credo niceno, base da cristologia professada pela igreja até hoje.

2

Formação do cânon do Novo Testamento

Sua 39ª Carta Festal é o primeiro documento conhecido a listar exatamente os 27 livros do Novo Testamento atual.

3

Difusão do monasticismo

Com a Vida de Antão, levou o exemplo dos monges egípcios ao Ocidente, influenciando figuras como Agostinho de Hipona.

4

Teologia trinitária

Lançou bases conceituais retomadas décadas depois no Concílio de Constantinopla e pelos Padres Capadócios.

Legado missionário

A convicção de que Cristo é plenamente Deus, defendida por ele sob perseguição, permanece o fundamento cristológico de toda pregação missionária.

Ao fixar os 27 livros do Novo Testamento, deixou às gerações seguintes de tradutores um texto-base estável para levar a Bíblia a novas línguas.

A Vida de Antão inspirou séculos de espiritualidade monástica que sustentaram ordens e comunidades voltadas à missão.

Sua resistência sob cinco exílios tornou-se símbolo, ainda hoje citado, da fidelidade doutrinária de cristãos perseguidos em várias partes do mundo.

Outras pessoas