Em muitos lugares do mundo ainda existe aquela vila pobre demais para atrair visitas, isolada demais para merecer atenção. É fácil pensar que ali pouco se pode fazer. A história de Jean-Frédéric Oberlin mostra o contrário: um pastor que passou a vida inteira numa única paróquia de camponeses miseráveis e a transformou por dentro.
Nascido em Estrasburgo em 31 de agosto de 1740, filho de um professor do ginásio protestante da cidade, Oberlin estudou teologia, filosofia e ciências naturais na Universidade de Strasbourg. Formou-se bacharel em 1758, obteve o mestrado em 1763 e defendeu sua tese de teologia em junho de 1767.
Naquele mesmo ano assumiu a paróquia luterana de Waldersbach, no Ban de la Roche, região isolada e miserável dos Vosges. Sucedia o pastor Jean-Georges Stuber, que já havia iniciado pequenas reformas. Oberlin permaneceria ali por 59 anos, até a morte.
Casou-se em 1768 com Madeleine Salomé Witter, com quem teve nove filhos. Ao lado dela, formou jovens “condutoras da tenra infância”, encarregadas de cuidar das crianças pequenas enquanto os pais trabalhavam. A partir de 1769 esse cuidado ganhou forma nas poêles à tricoter, salas aquecidas hoje reconhecidas como precursoras da escola maternal.
Sua ação pastoral não separava alma e corpo. Abriu estradas e construiu pontes ao lado dos camponeses, fundou uma sociedade agrícola em 1778, criou uma caixa de empréstimo e poupança em 1782 e montou uma biblioteca circulante, uma das mais antigas bibliotecas populares da Europa.
Sua fé, porém, não foi isenta de excessos: após a morte de Salomé em 1783, Oberlin relatou experiências visionárias e se aproximou do misticismo do sueco Emanuel Swedenborg, misturando racionalismo e ocultismo em suas próprias pregações. E, ao empenhar-se por substituir o patoá welche local pelo francês nas escolas, em nome do progresso, ajudou a apagar parte da cultura vernácula da comunidade que servia.
Durante o Terror revolucionário, foi proibido de lecionar e de exercer o ministério pastoral, e chegou a ser preso por três dias em Sélestat, no fim de julho de 1794, sendo libertado logo depois da queda de Robespierre.
Já idoso, recebeu a medalha de ouro da Sociedade Central de Agricultura da França em 1818 e a Legião de Honra em 1819, antes de morrer em Waldersbach em 1º de junho de 1826.
Seu nome batiza hoje uma cidade e uma universidade nos Estados Unidos, mas seu legado mais duradouro é outro: mostrar que o cuidado pastoral fiel, sustentado por décadas num só lugar pobre, pode reerguer uma comunidade inteira, corpo e alma, sem esperar reconhecimento algum.