Muita gente já parou diante de uma grande decisão sem saber em que apostar a vida. Blaise Pascal viveu essa tensão de um jeito radical: gênio da matemática desde criança, ele também enfrentou a pergunta que todo ser humano enfrenta, o que fazer com a própria fragilidade diante de Deus.
Nascido em Clermont-Ferrand, na França, em 19 de junho de 1623, Pascal perdeu a mãe ainda criança e foi educado pelo pai, um magistrado e matemático amador que logo percebeu o talento do filho. Aos dezenove anos, construiu a Pascalina, uma das primeiras máquinas de calcular da história, para ajudar o pai a somar impostos.
Nos anos seguintes dedicou-se à física e à matemática: projetou o experimento que comprovaria a existência da pressão atmosférica e, doente demais para subir a montanha, pediu ao cunhado Florin Périer que o realizasse no topo do Puy-de-Dôme, em 1648. Trocou também cartas com Pierre de Fermat sobre jogos de azar, lançando as bases da teoria da probabilidade.
Na noite de 23 de novembro de 1654, viveu uma experiência religiosa intensa que mudou o rumo de sua vida. Escreveu, num papel que costurou dentro do casaco e carregou até morrer, as palavras conhecidas hoje como o Memorial: “Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó, não dos filósofos e sábios”.
Aproximou-se então de Port-Royal, comunidade ligada ao movimento jansenista, onde sua irmã Jacqueline Pascal já vivia como freira. Escreveu as Cartas Provinciais, defendendo um amigo jansenista com uma ironia tão afiada contra a moral frouxa de parte dos jesuítas que, segundo historiadores, o retrato que fez deles nem sempre foi justo, ao atacar quase só a ordem jesuíta e negar valor até aos usos legítimos da casuística.
Nos últimos anos, já muito doente, chegou a usar um cinto com pontas de metal por baixo da roupa, pressionando-o com o cotovelo para se lembrar de evitar a vaidade quando sentia orgulho ou prazer demais em alguma situação, prática relatada pela própria irmã Gilberte em sua biografia. Morreu em Paris em 19 de agosto de 1662, aos trinta e nove anos, após uma vida inteira marcada por dores que os médicos de então não souberam explicar.
Suas anotações foram publicadas depois da morte como Pensamentos, um mosaico de fragmentos que argumenta que a razão sozinha não alcança Deus, mas que o coração humano, ao mesmo tempo grandioso e miserável sem o Criador, só encontra descanso nele.
O legado de Pascal atravessa séculos: seu argumento da aposta e sua descrição da grandeza e miséria humanas continuam sendo ferramenta viva para quem hoje conversa sobre fé com céticos e universitários.