David Joris nasceu por volta de 1501, provavelmente na região da Flandres, filho de um pequeno comerciante e ator amador. As fontes divergem sobre a cidade exata de seu nascimento, Bruges ou Gante. Aprendeu o ofício de pintor de vitrais em Antuérpia e, ainda jovem, já demonstrava o temperamento inquieto que marcaria toda a sua vida.
Estabelecido em Delft a partir de 1524, casou-se com Dirckgen Willems e logo se envolveu nas disputas da Reforma que sacudiam os Países Baixos. Em 1528 atacou publicamente uma procissão católica, sendo condenado a ter a língua furada e banido da cidade por três anos.
Em 1533 foi batizado como anabatista por Obbe Philips, em Delft. No caos que se seguiu à tragédia de Münster, David passou a se apresentar como o terceiro David, um profeta chamado a completar, por vias interiores, a obra do rei Davi e de Cristo.
Em 1536 participou do colóquio de Bocholt, tentando reconciliar as facções anabatistas rivais e conter o impulso de vingança que se seguira a Münster. Obteve algum sucesso em destacar pontos em comum entre os grupos, mas o encontro não chegou a decisões definitivas sobre questões mais espinhosas, como a poligamia. Suas próprias visões e pretensões proféticas também geraram desconfiança entre outros líderes, como Menno Simons, que mais tarde o acusaria publicamente de hipocrisia, por encobrir sob o discurso da perfeição espiritual uma defesa teórica da poligamia como forma de recompor a integridade da natureza humana, ainda que não haja prova de que ele próprio a tenha praticado.
Em 1539 sua mãe foi decapitada em Delft, junto a dezenas de outros seguidores presos naquele ano, e a família fugiu para Antuérpia. Com a perseguição crescente, David refugiou-se em Basileia em 1544, adotando o nome falso Jan van Brugge e escondendo por mais de uma década sua verdadeira identidade, mesmo entre os fiéis que o cercavam. Ali levou vida confortável como cidadão respeitado, enquanto muitos de seus seguidores nos Países Baixos continuavam sendo presos, torturados e executados por protegerem seu paradeiro, contraste já apontado por contemporâneos.
Ali produziu sua obra maior, o Wonder Boeck, publicada em 1542 e ampliada em 1551, defendendo que a letra das Escrituras devia ceder lugar à voz interior do Espírito no crente. Escreveu ainda mais de duzentos outros textos e tratados, hoje reunidos entre os documentos do espiritualismo anabatista holandês.
Morreu em Basileia em 25 de agosto de 1556, ainda sob identidade oculta. Três anos depois, denunciado por seu próprio genro Nicolas van Blesdijk, a universidade da cidade o condenou postumamente por heresia: seu corpo foi exumado e queimado em praça pública, junto com exemplares de seus livros, em 13 de maio de 1559.
A trajetória de David Joris deixa um alerta sobre o risco de trocar a autoridade da Palavra por revelações pessoais, sobre o preço, para a integridade do testemunho, de esconder a própria identidade por medo da perseguição, e sobre a distância entre o discurso de perfeição espiritual e uma vida vivida em segurança enquanto outros pagavam com a própria vida pela lealdade a um líder, cuidados que a missão cristã carrega até hoje.