c. 1498–1527

Mártir anabatista · Cofundador dos Irmãos Suíços

Felix Manz

Resumo
Cofundador do movimento anabatista em Zurique e primeiro mártir da Reforma Radical. Ao lado de Conrad Grebel, defendeu o batismo de adultos como confissão pessoal de fé e foi afogado por ordem dos magistrados protestantes em 1527.
Quem foi
Biografia

Poucos cristãos hoje pensariam duas vezes antes de escolher ser batizados por convicção própria. Para Felix Manz essa escolha custou a vida: foi afogado no rio Limmat, em Zurique, por magistrados que também se diziam reformados.

Manz nasceu por volta de 1498 em Zurique, filho ilegítimo de um cônego do Grossmünster, a principal igreja da cidade. Recebeu educação incomum para a época, com domínio de hebraico, grego e latim, o que lhe permitiu estudar as Escrituras nas línguas originais.

Tornou-se discípulo de Huldrych Zwingli, o reformador à frente da Reforma em Zurique desde 1519. Quando Conrad Grebel se uniu ao grupo, por volta de 1521, os dois se tornaram amigos e passaram a questionar juntos a missa e o batismo de crianças recém-nascidas.

Depois da Segunda Disputa de Zurique, em 1523, Manz e Grebel concluíram que Zwingli havia cedido demais às pressões do conselho da cidade. Para eles, só a fé pessoal e consciente, não o costume herdado ao nascer, deveria abrir a porta do batismo. O grupo também defendia o fim do pagamento de dízimos e juros, pauta que os magistrados de Zurique tratavam não só como divergência religiosa, mas como ameaça à ordem social e econômica da cidade, e Zwingli chegou a chamar Manz publicamente de camponês rebelde e obstinado.

Em 21 de janeiro de 1525, na casa da mãe de Manz, George Blaurock pediu para ser batizado por Grebel e depois batizou outros presentes. O gesto simples deu origem aos Irmãos Suíços, o primeiro grupo anabatista organizado da Reforma.

Manz continuou batizando adultos e pregando em vilarejos ao redor de Zurique mesmo depois que o conselho proibiu a prática, o que as autoridades entenderam como desafio deliberado à ordem pública. Foi preso repetidas vezes entre 1525 e 1527 por essa insistência.

Em 7 de março de 1526 o conselho de Zurique decretou que rebatizar adultos seria punido com a morte por afogamento, uma sentença de ironia macabra contra quem pregava o batismo. Manz foi o primeiro a sofrê-la, em 5 de janeiro de 1527, enquanto sua mãe o exortava da margem do rio a permanecer firme.

A morte de Manz não encerrou o movimento que ajudou a começar. Ela expôs, ainda no século 16, que reformadores podiam perseguir outros cristãos com a mesma dureza que condenavam em Roma, e deixou como legado a convicção de que a fé nasce de decisão pessoal, não de decreto de Estado.

“Em tuas mãos, Senhor, entrego o meu espírito.”
Felix Manz · Últimas palavras, cantadas em latim (In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum), segundo o relato de Heinrich Bullinger em sua Reformationsgeschichte sobre a execução de 5 de janeiro de 1527
Linha do tempo
c. 1498

Nascimento em Zurique

Filho ilegítimo de um cônego do Grossmünster, recebeu educação em hebraico, grego e latim.

1519

Aproximação de Zwingli

Torna-se discípulo do reformador que liderava a Reforma em Zurique.

1521

Amizade com Conrad Grebel

Os dois passam a questionar juntos a missa e o batismo de crianças.

1523

Segunda Disputa de Zurique

Manz e Grebel rompem com o ritmo de reformas aprovado por Zwingli e pelo conselho.

21 jan 1525

Primeiro batismo de crentes

Na casa da mãe de Manz, Blaurock é batizado por Grebel, dando origem aos Irmãos Suíços.

1525-1526

Prisões e pregação itinerante

Percorre vilarejos com Blaurock e é preso repetidas vezes por rebatizar adultos.

7 mar 1526

Decreto da pena de morte

O conselho de Zurique torna o rebatismo de adultos crime punível com afogamento.

5 jan 1527

Execução no Limmat

Torna-se o primeiro mártir anabatista, afogado por ordem dos magistrados protestantes.

Obras e marcos

Protestation und Schutzschrift

1524-25

Escrito de defesa dirigido ao Conselho de Zurique, um dos primeiros documentos do movimento anabatista, hoje atribuído a Manz.

Primeiro batismo de crentes adultos

21 jan 1525

A casa de sua mãe foi palco do batismo de George Blaurock por Conrad Grebel, gesto que deu origem aos Irmãos Suíços.

Fundação dos Irmãos Suíços

1525

Cofundou, com Grebel e Blaurock, a primeira congregação anabatista organizada da Reforma.

Pregação itinerante com Blaurock

1525-1526

Percorreu vilarejos ao redor de Zurique usando seu domínio das línguas bíblicas para explicar as Escrituras ao povo comum.

Hino atribuído no Ausbund

Ausbund, séc. 16

Um hino de 18 estrofes atribuído a Manz foi preservado no hinário Ausbund, ainda usado por comunidades amish.

Contribuições
1

Batismo como decisão pessoal

Ajudou a estabelecer a prática do batismo de crentes, ligando o rito a uma confissão de fé consciente, e não ao nascimento dentro de determinada comunidade.

2

Separação entre igreja e Estado

Defendeu que a igreja não deveria depender do poder civil para se organizar, princípio que mais tarde moldaria tradições batistas e de igreja livre.

3

Primeiro mártir da Reforma Radical

Sua execução tornou-se símbolo da perseguição sofrida pelos anabatistas, tanto por parte de católicos quanto de protestantes magisteriais.

4

Uso das línguas bíblicas para o povo comum

Aplicou seu domínio de hebraico e grego para tornar o conteúdo das Escrituras acessível a camponeses e artesãos, não só a clérigos.

Legado missionário

Inspirou tradições que hoje somam dezenas de milhões de cristãos, batistas, menonitas, amish e irmãos huteritas, todas herdeiras da convicção anabatista sobre o batismo de crentes.

O princípio da liberdade de consciência que defendeu, mesmo sob perseguição, alimenta até hoje o compromisso com a evangelização voluntária, sem imposição do Estado.

Seu exemplo de fé selada com a própria vida segue citado em igrejas perseguidas ao redor do mundo como testemunho de fidelidade sob pressão.

O modelo de pregação leiga e itinerante que praticou com Blaurock antecipou métodos hoje comuns em movimentos missionários de plantação de igrejas.

Outras pessoas