Poucas pessoas mudaram tanto a língua inglesa quanto William Tyndale. Ele arriscou e perdeu a própria vida pelo desejo de que qualquer leitor comum, sem latim nem grego, pudesse ler a Bíblia com as próprias palavras, na própria língua.
Nascido por volta de 1494 em Gloucestershire, na Inglaterra, Tyndale estudou em Oxford e depois em Cambridge. Tornou-se um dos linguistas mais talentosos de sua geração, dominando grego, hebraico e diversas línguas modernas da Europa.
Enquanto trabalhava como preceptor na família Walsh, em Little Sodbury, Gloucestershire, envolveu-se em um debate com um clérigo local que defendia a autoridade do papa acima da Escritura. Foi nesse contexto que, segundo o relato de John Foxe, teria declarado que faria o rapaz que arava o campo conhecer mais as Escrituras do que aquele religioso.
Convencido de que o povo precisava da Escritura em sua própria língua, viajou a Londres e pediu apoio ao bispo Cuthbert Tunstall para traduzir o Novo Testamento do grego. Diante da recusa, percebeu que não havia lugar na Inglaterra para esse trabalho.
Em 1524, deixou a Inglaterra e passou a viver exilado no continente europeu. Ali concluiu a tradução do Novo Testamento a partir do grego original, impressa em Worms em 1526 e depois contrabandeada para a Inglaterra escondida em fardos de tecido.
As autoridades reagiram com dureza: exemplares foram comprados e queimados publicamente, e Tyndale foi condenado como herege. Ainda assim, ele continuou revisando o Novo Testamento e avançou na tradução do Pentateuco, sempre em fuga entre cidades como Colônia, Worms e Antuérpia.
Homem de convicções firmes, Tyndale também foi descrito por contemporâneos como difícil e pouco flexível. Entrou em conflito com outros reformadores, como George Joye, por discordar de revisões feitas em seu próprio texto sem sua autorização. Travou ainda um confronto público e áspero com o estadista católico Thomas More, que o acusava de heresia; a disputa se estendeu por diversas obras publicadas pelos dois lados.
Em 1535, foi traído por um conhecido, Henry Phillips, e preso perto de Antuérpia. Passou cerca de dezoito meses na prisão do castelo de Vilvoorde, perto de Bruxelas, onde seguiu estudando hebraico, até ser condenado por heresia ligada às ideias da Reforma.
Executado em outubro de 1536, suas últimas palavras, segundo o cronista John Foxe, foram um pedido para que os olhos do rei da Inglaterra fossem abertos. Sua tradução tornou-se a base da Bíblia do Rei Tiago e de quase toda Bíblia inglesa publicada desde então.