1781–1812

Capelão · Tradutor da Bíblia

Henry Martyn

Resumo
Capelão anglicano da Companhia das Índias Orientais e tradutor bíblico, Henry Martyn deu aos falantes de urdu e persa o Novo Testamento em sua própria língua. Morreu aos 31 anos na Pérsia, mas seu trabalho de tradução moldou profundamente as missões entre povos de maioria muçulmana.
Quem foi
Biografia

Poucos estudantes brilhantes trocam uma carreira garantida por uma vida de fadiga, doença e solidão. Henry Martyn fez exatamente isso: o melhor matemático de sua turma em Cambridge decidiu gastar os poucos anos que lhe restavam traduzindo a Bíblia para línguas que a maioria dos ingleses de sua época sequer sabia que existiam.

Nascido em Truro, na Cornualha, em 18 de fevereiro de 1781, Martyn formou-se em Cambridge como Senior Wrangler, o primeiro colocado em matemática de seu ano, em 1801. A pregação de Charles Simeon sobre o missionário William Carey e a leitura da biografia de David Brainerd mudaram o rumo de sua vida.

Ordenado na Igreja Anglicana, Martyn planejava servir como missionário, mas um revés financeiro na família o obrigou a aceitar a capelania da Companhia das Índias Orientais. Embarcou para a Índia em julho de 1805 e, ao chegar a Calcutá, escreveu no diário: “agora, deixe-me queimar por Deus”.

Nas estações de Dinapore e Cawnpore, pregava, abria escolas e dedicava horas exaustivas ao estudo de línguas. Com a ajuda de eruditos indianos, produziu uma tradução cuidadosa do Novo Testamento para o urdu, concluída em 1808 e reconhecida como a melhor de sua época. Na mesma época, com a ajuda do controverso Sabat, produziu uma primeira versão persa, mas ficou tão carregada de termos árabes eruditos que decidiu refazê-la pessoalmente na Pérsia.

O trabalho tinha um custo alto. Doente de tuberculose e fisicamente exausto, Martyn recusou-se a desacelerar. Antes de embarcar, havia se apaixonado por Lydia Grenfell e chegou a lhe pedir que o acompanhasse à Índia, mas ela não pôde aceitar, presa a obrigações de família. Os dois nunca mais se encontraram, e Martyn manteve esse amor sem resposta até o fim da vida, sem nunca se casar. Essa entrega sem limites o levou à Pérsia antes que o corpo estivesse pronto para a viagem.

Em Xiraz, debateu por meses com muçulmanos, judeus e sufis enquanto refazia do zero sua tradução persa a partir do grego original, com a ajuda do erudito Mirza Sayyed Ali. Achou tempo até para sonhar com uma versão árabe, projeto que a doença não deixaria começar. Já doente, tentou entregar pessoalmente o texto revisado ao xá Fatáli em Tabriz, mas não conseguiu audiência. A tradução só chegou às mãos do xá depois, levada pelo embaixador britânico Gore Ouseley, que recebeu do xá uma carta elogiando sua clareza, já quando Martyn não estava mais vivo para saber.

A caminho da Inglaterra, já febril, atravessou a Armênia rumo a Constantinopla. A peste o deteve em Tocat, na atual Turquia, onde morreu em 16 de outubro de 1812, aos 31 anos, sepultado por clérigos armênios longe de casa e de Lydia.

Sua tradução do Novo Testamento em persa permaneceu em uso por gerações e ajudou a moldar um modelo de missão que respeita a língua e a cultura do povo alcançado. O lema atribuído a ele, “queimar por Deus”, continua citado por missionários que enfrentam campos difíceis e de curta expectativa de vida. Sua história também é lembrada como um alerta: a mesma disciplina implacável que produziu traduções duradouras também o levou a ignorar repetidos avisos médicos e a viajar doente até a morte, aos 31 anos, sem nunca reencontrar a mulher que amava.

“Tenho vivido até agora para bem pouco, mais como um pedaço de barro do que como servo de Deus. Agora, deixe-me queimar por Deus.”
Henry Martyn · Diário pessoal, abril de 1806, publicado em Journals and Letters of the Rev. Henry Martyn, B.D. (Samuel Wilberforce, ed., 1837)
Linha do tempo
1781

Nascimento em Truro, Cornualha

Filho de um administrador de minas, cresce em uma família cristã de tradição anglicana.

1801

Senior Wrangler em Cambridge

Termina em primeiro lugar em matemática de seu ano no St John's College.

1802

Chamado às missões

A pregação de Charles Simeon sobre William Carey e a leitura da vida de David Brainerd o voltam para o campo missionário.

1803

Ordenação como diácono

Ordenado em Ely, torna-se coadjutor de Simeon em Cambridge.

1805

Embarque para a Índia

Aceita a capelania da Companhia das Índias Orientais após revés financeiro na família e parte da Inglaterra em julho.

1806

Chegada a Calcutá

Registra no diário o desejo de 'se queimar por Deus' e inicia o trabalho de tradução em Dinapore.

1808

Conclusão do Novo Testamento em urdu

Obra considerada a mais precisa disponível até então.

1811

Viagem à Pérsia

Já doente, viaja a Xiraz para refazer a tradução persa a partir do grego original.

1812

Morte em Tocat

Morre em 16 de outubro, a caminho da Inglaterra. Não conseguiu entregar pessoalmente a tradução persa ao xá Fatáli em Tabriz; ela seria apresentada só em 1814, quase dois anos depois, pelo embaixador britânico Gore Ouseley.

Obras e marcos

Novo Testamento em urdu

1808

Tradução completa e cuidadosa do Novo Testamento para o urdu (hindustani), considerada a melhor versão disponível até então.

Primeira versão persa do Novo Testamento

1808

Traduzida em Dinapore com a ajuda do erudito Sabat, mas criticada depois por usar vocabulário árabe rebuscado, difícil para os persas comuns.

Novo Testamento em persa (versão de Xiraz)

1811-1812

Revisão feita do zero a partir do grego original, com a ajuda de Mirza Sayyed Ali, de Xiraz. Martyn não conseguiu entregá-la pessoalmente ao xá Fatáli; o embaixador britânico Gore Ouseley a apresentou depois, com elogios do xá em carta, e ela se tornou base de edições persas posteriores.

Evangelhos em judaico-persa

por volta de 1810

Tradução dos Evangelhos para o dialeto persa escrito em caracteres hebraicos, falado pelos judeus da Pérsia.

Livro de Oração Comum em urdu

1808

Tradução da liturgia anglicana para o urdu, usada nos cultos que organizava na Índia.

Salmos em persa

1811-1812

Tradução do saltério para o persa, complementando o trabalho no Novo Testamento.

Journals and Letters of the Rev. Henry Martyn

1837

Diário e cartas publicados postumamente por Samuel Wilberforce, tornaram-se uma das leituras devocionais mais influentes do século 19.

Contribuições
1

Modelo de tradução bíblica em línguas muçulmanas

Foi um dos primeiros a dedicar a vida à tradução cuidadosa das Escrituras para línguas faladas por povos de maioria muçulmana, abrindo caminho para tradutores das gerações seguintes.

2

Diálogo respeitoso com outras religiões

Em Xiraz, debateu com muçulmanos, judeus e sufis sem hostilidade, um estilo que influenciaria missionários posteriores como Thomas Valpy French e Temple Gairdner.

3

Diário como literatura devocional

Seus diários e cartas, publicados após a morte, tornaram-se leitura formativa para missionários ao longo do século 19.

4

Precisão linguística como valor missionário

Insistiu que a Bíblia fosse traduzida em linguagem clara e natural, não em vocabulário técnico incompreensível ao povo comum, elevando o padrão do trabalho de tradução bíblica.

Legado missionário

Sua tradução persa do Novo Testamento serviu de base para edições posteriores da Bíblia em persa, ainda usadas por comunidades cristãs no Irã e no Afeganistão.

O Instituto Henry Martyn, hoje sediado em Hyderabad, na Índia, mantém viva sua ênfase no diálogo entre cristãos e muçulmanos.

Seu exemplo de dedicação total, mesmo sabendo que morreria jovem, inspirou gerações de missionários ligados a Cambridge nos séculos seguintes.

A frase 'queimar por Deus', registrada em seu diário, continua citada como lema por missionários que servem em campos de acesso restrito e alto risco à saúde.

Outras pessoas